Em 2018, a cada cem ciclistas de Belo Horizonte, só oito eram mulheres. Apesar de ter registrado aumento em relação a 2010, quando a proporção era de duas para 98 homens, o número é considerado irrisório. Segundo a Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte (BH em Ciclo), órgão responsável pelos dados, a baixa presença feminina está relacionada a situações provocadas pelo machismo, como comentários maliciosos, ao medo de andar nas ruas sozinhas e até mesmo pelas más condições oferecidas a quem faz deslocamentos usando bike. 

Para incentivar as pedaladas entre o público feminino, a entidade inicia hoje uma campanha. A associação pedirá às ciclistas que postem fotos contando sua relação com as magrelas. Em seguida, a ideia é reunir as praticantes do esporte, mensalmente, em uma regional da capital, para observar diferentes realidades. Já em novembro, a BH em Ciclo, que tem pedido doações para fomentar pesquisas e ações, lançará uma cartilha de orientação às mulheres.

“Recebemos diversos relatos de vítimas de assédio no trânsito. Muitas não sabem o que fazer, como agir e a quem recorrer”, diz uma das diretoras da BH em Ciclo, Helena Coelho. Segundo ela, essas e outras perguntas serão respondidas com a publicação. O documento será feito com base em questionamentos já encaminhados à BHTrans, por meio da Comissão de Mulheres da Câmara Municipal de Belo Horizonte. A empresa analisa a demanda. 

Empecilhos

Quem já anda de bike há algum tempo na capital garante que situações constrangedoras são comuns. É o caso da jornalista Jessica de Almeida, de 26 anos. Moradora do bairro Tupi, na região Norte de BH, desde 2013 ela usa a bicicleta como meio de transporte se locomover. 
De lá pra cá, inúmeras vezes Jessica foi alvo de comentários maliciosos. “Já me chamaram de gostosa e até pediram para eu dar uma carona. Além de ser desrespeitoso, atitudes como essas colocam as ciclistas em risco”, diz. 

Para Ludmila Miranda Sartori, mestre em estudos do lazer pela UFMG, é necessário políticas públicas para garantir a prática com segurança. “Incentivar o uso da bicicleta é uma questão de saúde pública”, ressalta. 

Em nota, a Secretaria Municipal de Segurança e Prevenção (SMPS) disse que a Guarda Municipal faz patrulha durante todo o dia e que, em situações de assédio, o agente faz abordagem e toma “medidas cabíveis”. Em casos de importunação sexual, os envolvidos são encaminhados à Delegacia da Mulher. Já a Polícia Militar não respondeu até o fechamento desta edição.


Além Disso

As condições das ciclovias e a falta de faixas exclusivas são alguns dos impeditivos para quem deseja adotar as bicicletas como meio de deslocamento entre pontos de Belo Horizonte. Apesar de haver uma meta de atingir 400 quilômetros de pistas destinadas aos usuários de bike até 2020, a BHTrans informou que até o momento a capital possui apenas 90 quilômetros.

A ausência dos espaços é um dos motivos para que a psiquiatra Adelina Vieira, de 62 anos, não use com frequência o transporte sobre duas rodas para se deslocar do Centro da cidade, onde mora, até o Santa Efigênia, local de seu consultório. “Queria poder usar mais, mas como em somente alguns trechos é possível achar uma ciclovia, acabo ficando com medo de andar entre os carros”, conta a psiquiatra.

Em nota, a empresa que gerencia o tráfego na capital alegou que a execução do programa Pedala BH, vinculado ao Plano de Mobilidade de Belo Horizonte (PlanMob), está sendo “continuamente construído e discutido com a sociedade civil” e que ações para incentivar o uso das bicicletas estão em curso. Ainda em nota, a BHTrans disse que as empresas participantes da licitação do Projeto Executivo de Infraestrutura Cicloviária da Orla da Lagoa da Pampulha já estão sendo notificadas. A ideia é expandir as ciclovias no cartão-postal e interligá-las com a Estação da Pampulha.