Não é só chuva! Relevo acidentado, clima úmido e ocupação desordenada ameaçam história de Ouro Preto

Luciane Amaral
lamaral@hojeemdia.com.br
13/01/2022 às 18:24.
Atualizado em 18/01/2022 às 00:53
 (Fernando Haikal / Arquivo Hoje em Dia)

(Fernando Haikal / Arquivo Hoje em Dia)

Encravada na Serra de Serra de Ouro Preto, a história de Ouro Preto pede socorro. A cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade já foi a maior metrópole das Américas, no auge do ciclo do ouro, no século 18, quando fervilhava com as 150 mil pessoas que foram atraídas pelas minas que existiam na região.

Palco da Inconfidência Mineira, as ladeiras de pedra testemunham a importância histórica de um dos maiores conjuntos barrocos preservados no país. São pelo menos 20 igrejas e capelas, muitas delas com obras de Aleijadinho, um dos maiores escultores do período colonial brasileiro.

A antiga Vila Rica, que já foi sede da capitania de Minas Gerais e capital da província, ganhou ainda, pela importância para o estado, chafarizes, pontes, edifícios públicos e religiosos, os mais belos exemplares da arquitetura oficial e civil do período  colonial e é um dos mais relevantes conjuntos arquitetônicos históricos do país e do mundo.

Mas o relevo acidentado, com escarpas íngremes e vales profundos, é um risco para os casarões centenários, que resistem ao clima Tropical de Altitude Úmido, característico das regiões montanhosas, com temperaturas muito baixas no inverno e chuvas mais intensas entre dezembro a março.

Na segunda-feira (10), a prefeitura publicou o Decreto nº 6.355, oficializando a situação de emergência no município, no mesmo dia, em que foi confirmada a morte de um homem que estava desaparecido desde sábado (8), quando a casa dele, no Bairro Santa Cruz, foi atingida por um deslizamento de terra. Sob alerta meteorológico, vários pontos da cidade foram interditados, principalmente por causa do risco de deslizamentos de terra. Segundo o prefeito da cidade, Ângelo Oswaldo, vários distritos estão com problemas de acesso.

O adensamento populacional, com a ocupação de encostas e morros, tornou mais grave ainda os riscos de desabamento dos imóveis e de escorregamentos de terra. Outro fator que pode influenciar a instabilidade de terrenos, provocando inclusive escorregamentos, é a variação climática, com a pluviosidade, explica pós-doutora em geotecnia Rosyelle Corteletti.

Segundo a especialista, Ouro Preto está na lista das cidades com maior risco de deslizamentos do país. E todas as áreas que podem sofrer efeitos como escorregamento de terra ou deslizamento de encostas estão mapeadas na cidade, em um trabalho desenvolvido pela Defesa Civil, em parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Inclusive, há,diz a pesquisadora, há um aplicativo que mostra as condições do tempo e os moradores podem acompanhar em tempo real se há risco geológico ou de chuvas fortes.

A Defesa Civil isolou na quarta-feira (12), uma área no Centro da cidade assim que agentes perceberam a movimentação de terra no Morro da Forca. Na manhã desta quinta (13), a primeira construção em estilo neocolonial de Ouro Preto, veio abaixo junto com a terra que desceu do morro. Outro imóvel que também estava vazio, foi totalmente destruído. O local é de grande circulação de veículos e, como a área foi interditada preventivamente, ninguém foi atingido.

De acordo com o Iphan, o Solar Baeta Neves estava interditado desde 2012, quando ocorreu o deslizamento de um trecho da encosta, comprometendo um anexo existente na parte posterior do lote. O terreno foi adquirido por uma tradicional família de comerciantes da região, por volta de 1890, e a construção foi erguida nos anos seguintes, às margens do Córrego do Funil, próximo à Estação Ferroviária, local que mais se desenvolvia na cidade, antes da transferência da capital para BH. O imóvel passou por obras de restauro em 2010.

Segundo o prefeito da cidade, Ângelo Oswaldo (PV), há um ano e meio, houve um incêndio no Morro da Forca que destruiu totalmente a vegetação nativa. Não houve replantio na área e a vegetação que nasceu no local não foi suficiente para dar estabilidade ao terreno, que veio abaixo.  

De acordo com Margareth Monteiro, secretária de Cultura da cidade, o casarão seria vistoriado nos próximos dias. E outro imóvel que foi parcialmente atingido, onde funcionou um supermercado, também estava vazio.

Muitas construções antigas da cidade não têm fundações reforçadas e acabam sujeitas às movimentações dos terrenos, principalmente em períodos de chuvas mais intensas. Segundo o prefeito, as paredes superiores de uma casa que está fechada há oito anos e em ruínas desmoronaram, na Ladeira de Santa Efigênia. O imóvel acabou de ser desapropriado para ser restaurado e utilizado como Centro de Educação e Cultura.

Ainda de acordo com a prefeitura do município, no Centro, o casarão Dr. João Veloso começou a ser escorado na segunda-feira (10), sob a coordenação das Secretarias de Cultura e Turismo.  “O acervo histórico resiste bem a um verdadeiro dilúvio'', afirma Ângelo Oswaldo. Segundo ele, a prefeitura está articulando a liberação de recursos da ordem de R$ 35 milhões do PAC das Encostas. Os recursos foram habilitados para uso pela Caixa em 2012 e ficaram parados na conta, sem uso até agora. De acordo com Ângelo Oswaldo, as obras têm de ser feitas por meio do Governo de Minas e ele já está em entendimento com o Secretário de Estado de Infraestrutura e Mobilidade, Fernando Marcato, para dar início aos trabalhos.

Ângelo Oswaldo disse que nesta quinta, recebeu a ligação da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que manifestou solidariedade pelos acontecimentos na cidade.

Em nota, o Instituto informou que funcionários do Escritório Técnico do Iphan estiveram no local do desmoronamento, poucos minutos depois do desastre. E que vêm acompanhando o andamento da situação, por meio de troca de informações com a prefeitura e entidades competentes.

A perda do patrimônio cultural edificado implica prejuízos para a memória e a história do país. E a chuva só piora a situação de vários bens tombados. Carlos José Aparecido de Oliveira, o Caju, administrador do Museu de Arte Sacra de Ouro Preto, que engloba 23 igrejas históricas na cidade, explica, com tristeza, que a falta de recursos e a burocracia atrapalham muito qualquer iniciativa de manutenção.

Em dezembro, foi preciso fazer reparos no teto da Igreja de São Francisco de Paula, que apresentava infiltração. Foram gastos R$ 40 mil reais. “Pra isso não há recursos públicos ou do Iphan, mesmo para essas pequenas intervenções. É muito complicado. Você imagina que são 23 igrejas - de onde nós podemos tirar R$ 40 mil reais para consertar infiltrações? Porque é quando chove que a gente vê que precisa consertar. E o dinheiro arrecadado com a visitação de turistas não é suficiente”

E, segundo o historiador e gestor do museu de território, há problemas bem maiores do que a chuva. Há sete anos a comunidade espera pelas obras do PAC que poderão permitir a reabertura da Capela Do Bom Jesus de Matosinhos de Cabeças ou de São Miguel e Almas, no bairro Cabeças.

A igreja começou a ser construída no fim do século XVIII e levou 100 anos para ser considerada pronta, com pinturas de Mestre Ataíde, um dos mais importantes mestres da pintura barroca, e a portada frontal de outro gênio do Barroco, Aleijadinho. Do lado de fora da Igreja São Miguel e o Purgatório estão prontos para receber os visitantes. Só que pouca gente visita o local. Dentro da igreja, tudo foi retirado. A capela foi fechada há sete anos, por iniciativa da comunidade, porque a estrutura está comprometida, desde o telhado até a fachada. A porta de entrada teve que ser escorada por peças de madeira.  

“Há uma situação muito mais grave, um problema muito maior e a ameaça à portada (de Aleijadinho) é consequência dela, que é o risco geológico. É preciso fazer um investimento grande para estabilizar o terreno, mas os projetos do PAC das Cidades Históricas não foram concluídos e nem aprovados”

E além do prejuízo material, cultural e histórico, a identidade cultural e religiosa também é afetada. “Nos lidamos com os desafios de envelhecimento dos materiais. Mas há valores afetivos, religiosos da comunidade que sente muito toda essa perda”, lamenta Caju. “É um caminho medonho para a preservação do patrimônio. É tanta burocracia, que os projetos não saem do papel. As obras para recuperar a capela foram orçadas na época do fechamento em R$ 8 milhões. Não vai ser com dinheiro da visita de turistas que eu vou conseguir esse dinheiro, não”, finaliza.

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