A sensação é de incêndio no quintal. O cheiro de 'queimado' é forte e até fuligem voa e pousa na sala de casa. O fenômeno que surpreendeu moradores de diversas regiões de Belo Horizonte na noite dessa quarta-feira (18) não é atípico, de acordo com a Defesa Civil, mas assustou devido à proporção, causada por um conjunto de fatores ruins. O detalhe é que a fumaça pode retornar nesta quinta-feira. 

Quem explica o fenômeno é Dayan Carvalho, diretor de Meteorologia e Alerta de Risco da Defesa Civil municipal. Segundo ele, o fenômeno foi causado por um conjunto de fatores ruins: os incêndios aumentaram a fuligem na atmosfera já carregada com poluentes urbanos e sem vento. Essas partículas foram barradas pela massa de ar quente e seco, permanecendo na atmosfera e se dissipando em toda cidade, provocando a névoa e o cheiro forte de queimada. 

"Com atmosfera 'parada' há cerca de uma semana, massa de ar quente e seco, grandes incêndios na capital e arredores, ausência de ventos fortes e, por fim, poluentes urbanos estacionados na baixa atmosfera, o resultado é o que muitos viram e sentiram na última noite", disse o metereologista.

Incêndios, devastação e fuligem


Só ao redor da capital, nessa quarta, o Corpo de Bombeiros combateu, pelo terceiro dia consecutivo, um incêndio na Serra da Moeda, em Moeda, na região Central; e no Morro do Chapéu, em Nova Lima, na Grande BH. Em Sabará, na mesma região, as chamas ainda queimam a vegetação na manhã desta quinta-feira (19).

"Na realidade, é um tipo de fenômeno. O tipo de incêndio - se são folhas, galhos de árvore ou plástico - é que dirá se haverá fuligem ou não. Se houvesse vento, teríamos sentido essa fumaça, porém, de maneira bem mais branda", afirma Dayan Carvalho. Segundo ele, nessa quarta, a fuligem em alta concentração foi provocada pela quantidade de incêndios florestais, com folhas e galhos sendo queimados.

Morador do bairro Saudade, na região Leste, o mecânico Wanderlei Francisco, de 44 anos, tinha acabado de limpar a casa quando percebeu a fumaça densa no entorno do imóvel. “Hoje cedo já precisei jogar água de novo, tenho filho pequeno e ele queria brincar e estava tudo cheio de fuligem”, conta. No São Geraldo, na mesma regional, o comerciante Alci Moreira, de 53, se sentiu mal com o cheiro forte. “Geralmente, existem queimadas nessa época, mas nunca tinha visto uma nuvem tão escura cobrindo o bairro todo”. 

O tempo seco e a fumaça prejudicaram também a saúde de Luísa, de apenas 1 ano. Ela e a mãe, Jaqueline Araújo, de 40, vivem no União, região Nordeste de BH, e aspiraram diretamente o vapor vindo de queimadas em Sabará, cidade vizinha. “A janela do quarto estava aberta e a neném começou a tossir, ficou difícil para a gente respirar, fechei todas as entradas de ar da casa e ficamos no calor”, afirma. As vasilhas de Jaqueline estavam secando na pedra e ficaram repletas de cinzas. 

A fumaça tampou até a vista da Serra da Piedade, do apartamento da enfermeira Nelita Rocha Mio, de 70 anos, também no União. Para se cuidar, ela está bebendo bastante água e fechou a varanda para que o ar denso não continue a se espalhar pela casa. Veja o depoimento:
 

 

Quando o tempo melhora?

A previsão meteorológica é de alerta, mantido até esta sexta-feira (20). Nesta quinta-feira (19), a massa continua em atuação e a névoa pode retornar, já que há fumaça de rescaldo e o combate em Sabará continuam.

Para piorar a situação, a expectativa é de quebra de novo recorde de temperatura nesta quinta. A Defesa Civil monitora o clima e, por enquanto, os números devem chegar aos 36 graus. Já o índice de umidade relativa do ar deve ficar em 15%. 

A melhora no clima deve chegar em quatro dias. "Há expectativa que esse padrão atmosférico se altere no domingo (22), com indicativo de chuvas fracas e isoladas. A primavera se inicia no dia 23 e é muito provável que tenhamos chuva já no início dessa estação", explicou Dayan.

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