Nada menos que 1,2 milhão de pessoas foi a perda de passageiros registrada no metrô de Belo Horizonte nos primeiros sete meses deste ano, na comparação com igual período de 2018. Mais de 70% da queda ocorreu apenas em junho e julho, data que coincide com o aumento na tarifa do transporte. Em meio ao impacto no recuo de usuários, o modal terá novo reajuste. A passagem salta dos atuais R$ 2,90 para R$ 3,40 neste domingo.

A Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) evita comentar os números, alegando que só quem utiliza o sistema deve falar. No entanto, diz que há diminuição normal no fluxo devido ao período de férias. Muitos usuários, porém, garantem que o preço dos bilhetes tem pesado na escolha. Vários já optaram por outras formas de locomoção, como ônibus, aplicativos de transporte e caronas. Especialistas avaliam que bicicletas e patinetes compartilhados também podem entrar no radar.

Uma das pessoas que deixará de usar o serviço é a faxineira Vanderli Pereira Costa, de 50 anos. Ela vai trocar o metrô por dois ônibus para se deslocar da região Nordeste ao Centro da capital. “Já acho um absurdo R$ 2,90 e agora esse preço sem conforto nenhum? Mesmo pegando dois coletivos, acabo economizando R$ 3 por dia por causa do sistema de integração do Move”. 

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“Não tem acessibilidade, rampa. O elevador demora muito. Esse aumento é um absurdo. 
O metrô, além de ter poucas estações, não é um serviço bom”
Francielle Botelho
Dona de casa

O professor de dança Carlos Gomes, de 28 anos, também já pensa em alternativas. Diariamente, o jovem percorre diferentes regiões da capital, como Venda Nova, Centro-Sul e zona Oeste. “Ele (trem) ainda acaba compensando por causa da velocidade. Mas já estou pegando caronas com gente que está indo na mesma direção. Com esse preço, daqui a alguns dias, vou dar aulas apenas para pagar passagem”, explica.

Sem abrir mão

Apesar de não concordar com a elevação da tarifa, a diarista Edinalva Aparecida de Melo, de 56 anos, não abrirá mão do metrô. Para sair do São Gabriel, na região Nordeste, e ir até o Centro, onde trabalha, ela utiliza dois ônibus, além do metrô. “Ainda assim, compensa. Chego mais rápido e fica mais barato”, diz, ressaltando que há problemas nos trens, como os assentos e o ar-condicionado.

No domingo haverá novo reajuste na tarifa do metrô. Passagem salta dos atuais R$ 2,90 para R$ 3,40. Muitos usuários garantem que vão deixar de usar o meio de transporte para se locomover na capital

Gasto extra com aumento será de R$ 70 em um mês

Um botijão de gás, 15 litros de gasolina, 10,5 quilos (kg) de frango, 5kg de pão francês e 29 litros de leite. Esses são apenas alguns dos produtos que poderiam ser comprados com o gasto extra representado pelo reajuste do metrô, após passagem chegar a R$ 3,40. O levantamento é do site Mercado Mineiro.

Segundo o economista Feliciano Abreu, por dia o usuário vai pagar R$ 1,60 a mais. Em um mês – considerando 22 dias trabalhados e a ida e a volta ao serviço –, serão desembolsados R$ 70,40. “Gastando mais com o transporte público o usuário deixa de comprar algo fundamental na rotina. E há um agravante. Ele está pagando mais para andar na mesma estrutura”. 

Outro possível impacto, acredita o especialista, pode ser em menor oferta de vagas no mercado. “Não sei se vai resultar em um aumento da taxa de desemprego, mas as oportunidades de contratação vão diminuir. Com o reajuste, o empresário pode ficar sem condição de arcar com o transporte e não contratar, dependendo do gasto”.

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“Já acho um absurdo R$ 2,90 e agora esse preço sem conforto nenhum? Mesmo pegando dois coletivos, economizo R$ 3 por dia por causa do Move”
Vanderli Pereira Costa
Faxineira
 

O professor Guilherme Leiva, do Cefet, questionou a elevação da tarifa. “Com o aumento, não se pode abrir mão da expansão do metrô. Acho que é uma condição importante”.

Sobre a mudança nos tickets, a CBTU informou que “a recomposição tarifária não está atrelada a nenhum investimento em particular. Ela foi determinada por decisão da Justiça e cabe à CBTU cumprir”.

Questionada sobre a expansão do modal, a companhia explicou que o assunto é tratado pelo Ministério do Desenvolvimento Regional. O órgão foi procurado, mas não se manifestou até o fechamento desta edição.

Além disso

Professor de Engenharia de Transportes do Cefet-MG, Guilherme Leiva acredita que a queda de usuários já é uma consequência do reajuste e a incompatibilidade de preço diante da qualidade do serviço prestado. “A migração de forma forçada, devido ao custo maior de determinado serviço, é ruim. Você tira o poder de escolha do cidadão”, observa.

Essa redução de passageiros também pode ser reflexo da crise econômica enfrentada no país, destaca Fernando Oliveira, professor de Controle de Transporte e Trânsito, do curso de Engenharia Civil das Faculdades Kennedy. “A taxa de desemprego é muito alta e temos outros meios de transporte surgindo, como as patinetes e bicicletas. É um sinal, mesmo que pequeno ainda, de que as pessoas estão se adaptando às novas possibilidades”, acredita.

A Companhia de Trens Urbanos não disponibilizou fonte para falar sobre o assunto. Em nota, informou que o desconforto nas viagens, dentro do horário de pico, se deve ao fato de que mais de 55% dos usuários se deslocam neste período. Para atender a demanda, a CBTU ainda diz que aumenta o número de trens nesses intervalos.

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