Os guichês lotados, as longas filas e o entra e sai constante de pessoas na rodoviária de BH são sinais de uma corrida contra o tempo na véspera de Natal. Para ganhar um abraço dos pais, entregar presentes aos filhos – ou crianças carentes – e matar a vontade de comer um prato típico, viajantes enfrentam horas, ou dias, dentro dos ônibus com a expectativa de passar a data com a família. Nas malas, além de mimos, puro afeto. 

Afinal, a época é sagrada e todo sacrifício é válido. Dessa forma pensa a subgerente Liliane das Graças, de 32 anos, nascida em Ponte Nova. Desde que se mudou para São Paulo, há 14 anos, mantém a tradição de estar com os parentes na cidade da Zona da Mata. Porém, neste ano, tem enfrentado uma maratona com o filho Mateus, de 11. A viagem, que duraria 14 horas da capital paulista à metrópole mineira, só terminou após 17 horas por conta do trânsito. 

Com o atraso, a dupla acabou perdendo o outro ônibus, rumo ao interior. “Estou esperando resposta para tentar uma carona. Preciso dar um jeito de chegar”, conta, ao lado das sacolas repletas de presentes. Mateus estava ansioso. “Só venho uma vez por ano”, diz o menino, que gosta de andar de bicicleta com os primos e o tio. 

Carinho

No área de embarque e desembarque do terminal também estava a vendedora Roseli Borges, de 49 anos. Natural de Mariana, na região Central, mudou-se para Belo Horizonte há uma década. Toda vez que pega estrada nesta época do ano, leva presentes para meninos e meninas carentes. “Recolho cartinhas e consigo padrinhos. É bom demais ver os olhinhos deles brilhando”, declara, ao mostrar as caixas embaladas. 

Além das crianças, Roseli tem no Natal a oportunidade de reunir os quatro filhos, os pais e os irmãos e pode “matar” uma vontade especial: se esbaldar nos quitutes. “É doce de figo, de mamão, de coco. Uma delícia”, descreveu a vendedora, antes de se despedir. “Boas festas”, desejou à equipe.

Pará em Minas

Solitário em um guichê, o carpinteiro Aquiles de Almeida, de 34 anos, tenta um “bilhete premiado”. Paraense de Belém, quer passar pelo menos parte do dia 25 com os pais e comer “açaí puro”. Só que, além de a viagem durar dois dias e meio, precisa garantir o quanto antes a passagem. “Aguardo o ano inteiro para ver meu pai e minha mãe. Sinto falta de Belém”.

Enquanto Aquiles vai, Gustavo Dias, de 37, vem. “Vou passar o Natal com minha filha, de 2 anos, em Corinto (região Central) e o Ano Novo com outros dois, de 12 e 14, em Teófilo Otoni (Jequitinhonha)”, conta o montador eletricista de Redenção, cidade que fica a cerca de mil quilômetros de Belém.

De acordo com ele, que vem à capital mineira de 90 em 90 dias, o esforço é compensado quando encontra as crianças. Neste ano, traz de presente uma bicicleta para a mais nova e roupas para os mais velhos. “Mas estar junto é o mínimo. Não importa a distância”.