Considerada uma vitória pelos representantes de bares e restaurantes, a decisão judicial que permitiu a volta desses estabelecimentos em Belo Horizonte, além do delivery, não foi suficiente para dar segurança a boa parte do empresariado. Há comerciantes descartando a reabertura dos negócios até que se bata o martelo sobre o assunto. Até a noite de ontem, a Justiça ainda analisava o recurso da prefeitura que visa a impedir a retomada das atividades.

Mesmo com a possibilidade de um “respiro”, a recomendação é ter cautela, destaca o presidente nacional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci. “A autorização não quer dizer que temos a obrigação de reabrir por agora. Devemos estar atentos a um retrocesso caso a liminar seja suspensa e os proprietários também precisam conhecer os protocolos para prepararem as suas ‘casas’”, diz.

Apesar de especialistas em saúde criticarem a volta dos setores no que é considerado o pior momento da pandemia na capital – ontem, BH teve recorde diário de mortes, com 35 óbitos –, Solmucci garante que a entidade acompanha os números da doença na cidade. Até agora, conforme o boletim epidemiológico da prefeitura, são 14.089 infectados e 378 óbitos.

Receio
Mesmo reconhecendo que voltar a receber público, mesmo que pequeno, pode aliviar um pouco os prejuízos, João Souza garante que irá continuar oferecendo apenas delivery e retirada de refeição na porta do restaurante Too Much, na região hospitalar. “Essas coisas (liminares) estão muito no vai e volta. Já vimos casos de lojas que acionaram a Justiça, reabriram e depois fecharam. Isso compromete o planejamento”, diz.

Da mesma opinião é Miriam Cerutti, do Mármore 450, no bairro Santa Tereza, Leste da capital. “Estamos fechados há quatro meses, já dá para reabrir aos poucos, com todas as recomendações sanitárias, mas vamos aguardar a decisão final (da Justiça) para ver se dá para voltar ou não”.

Já Gabriela Ribeiro Souza, da Mercearia da Serra, no bairro de mesmo nome, na região Centro-Sul, ontem se planejava para adequar o atendimento ao “novo normal”. O estabelecimento, que ficou uma semana de portas fechadas após o decreto de 20 de março e retomou as atividades no sistema de retirada no local, deve começar a ter clientes no espaço ainda hoje.

Das 16 mesas, ficarão apenas cinco, para atender ao espaçamento mínimo obrigatório previsto na decisão judicial. “Para mim, o retorno fará diferença. Muitos clientes que fazem entregas por aqui estão comendo dentro dos carros, desconfortavelmente”.

Gabriela, porém, afirma que o maior receio será lidar com as pessoas. Uma das normas determina que cada mesa seja ocupada por apenas uma pessoa a cada vez. “Como elas irão se portar se todos os lugares estiverem ocupados e tivermos que falar para aguardar? Vamos ter que contar com o bom-senso”, avalia.

Ter novamente público é a preocupação de Leonardo Estevão, do restaurante Doce Magia, no Sion, região Centro-Sul. “Ainda não tem como tomar atitude nenhuma. O pessoal vai ficar com medo de ir e tem que abrir as empresas do entorno para ter fluxo (de clientes). Ainda não sei se vai compensar”.

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