A fachada antiga de um prédio na avenida Pedro II, no bairro Carlos Prates, região Noroeste de Belo Horizonte, esconde um espaço de muita vida. Três mulheres montaram ali um empreendimento que, há três anos, acelera atividades de mobilização e tem o engajamento como ofício. 

A NaAção é uma ONG que já auxiliou mais de 20 organizações, foi “escola” para mais de 850 empreendedores sociais e faz um trabalho de “resgate” dos sobreviventes de Brumadinho. Carolina Antunes, de 41 anos, é uma das mentoras. Com mais de 15 anos dedicados ao terceiro setor, ela acredita que as ONGs no Brasil precisam aprender a fazer do social um negócio e se profissionalizar para ter perenidade.

Como surgiram a ideia e o conceito da NaAção?

Nada é por acaso. Tenho mais de 15 anos de trabalho voluntário. Sou advogada; me formei e comecei a trabalhar. Fui professora na Academia de Polícia Militar, também atuava muito forte na advocacia. Fui também liderança na OAB. Paralelo a isso, sempre, aos fins de semana ou à noite, fazia trabalho voluntário. Comecei desde cedo com empreendedorismo para jovens em escolas públicas. Sempre trabalhei com o viés voluntário e com essa preocupação de levar autonomia e independência para as pessoas. A gente pode perder tudo na vida, mas a gente não pode perder a dignidade de ser autônomo e de ser independente, porque é o que nos faz ser realmente livres e seres humanos. Se você se sentir um ser incapaz, impotente e sem autonomia, você não consegue fazer mais nada. Mas chegou uma hora que eu pensei em me dedicar 100% ao social. A NaAção iniciou como um projeto. Esse nome é nosso DNA. A gente gosta muito da ação, da prática, do resultado. Fundadoras somos três. Eu, Guilhermina e Gabriela. Temos também o Dante e o Leonardo e Lu, que trabalham com a gente.

Dedicar-se 100% ao social era um sonho?

Muito distante, porque todo mundo fala que para o social você tem que abdicar de tudo, pois você não tem vida mais. Mas eu acredito que se pode fazer do social um negócio. Você pode ter sua sobrevivência, tirar seu salário. Lógico que não é igual ao salário de executivo de uma grande companhia, mas você pode sim fazer o bem e mesmo assim se sustentar fazendo isso. Mas não é uma coisa com que eu sonhava. Me formei em advocacia, mas sempre estava ali. E desde criança. Lembro que morava no interior, minha casa era pequena e o asilo ficava atrás. Eu pulava o muro para ir ajudar os velhinhos.

Carolina Antunes

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Como é o trabalho de vocês?

Comecei a imaginar o NaAção na prática. Visitava comunidades de Belo Horizonte para entender a realidade dali. A gente fala muito, aqui no asfalto, sobre o que é problema social. Mas a gente tem que ir até as comunidades e ouvir de quem está trabalhando ali ‘qual é realmente o problema’. Fiz isso durante um ano. Neste trabalho, vi que faltava um link, uma ponte entre o asfalto e o morro, faltavam oportunidades, conexão. Muitos projetos sociais bons acabam morrendo por falta desse respiro que boas conexões trazem. Então o NaAção nasce com essa possibilidade. Para que através de conexões os projetos sociais aconteçam com sustentabilidade e possam viver mais tempo, e não acabar simplesmente por falta de dinheiro e parcerias.

O trabalho segue o conceito de coworking em uma rede?

É uma rede. Esse é o grande inicial do NaAção. É um trabalho coletivo, de várias pessoas entrando e dando a opinião, falando o que deveria ser. Eu encontrei minhas duas sócias aqui, co-fundadoras do NaAção, nesse processo, o que cada uma tinha de DNA parecido com isso. Não foi preparado, não foi porque elas colocaram capital ou não. Até porque a gente é ONG. Só que atualmente a NaAção é muito maior. A gente entende que o nosso impacto social precisa ser sustentável. Temos produtos que a gente vende para empresas, como capacitação de funcionários das classes C e D, pessoas que não têm muitas oportunidades. A gente foca nisso.

O que vocês trabalham com os gestores de projetos sociais?

Aqui a gente trabalha empreendedores sociais, que têm ONGs e negócios, com essa visão: preciso ser sustentável, preciso entender que mesmo sendo um projeto social tenho que fazer fluxo de caixa, saber que tenho que vender, saber que tenho que me conectar, ter uma rede de negócios, saber que tenho que ter um produto. Eu estou em Brumadinho, por exemplo. Sei falar exatamente quantos atendimentos fiz desde a tragédia da Vale.

Carolina Antunes

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Quantos?

586. Sei porque é tudo planejado. Todos os atendimentos têm um prontuário. Senão o trabalho se perde, não fica uma coisa séria. Então toda essa visão a gente constrói aqui dentro, através de nossos produtos. Um é a jornada, que é um processo de aceleração de empreendedores sociais. Nós temos o coworking, que é um espaço monetizado com preço social bem baixo, pra quem está aqui. E temos também os projetos de alto-impacto, como os de Brumadinho, que é nosso DNA maior, que é a autonomia, a independência, a sustentabilidade das ações e dessas pessoas.

Faltam boas ideias de longo prazo no Brasil?

No Brasil não faltam boas ideias. Faltam ações. Tem muita ideia, mas ela não tem valor nenhum se você não colocá-la em prática. E muita gente na hora de pôr em prática se atropela, ou não dá conta, ou vai muito forte desde o início e aí no meio do caminho já perdeu as forças e morre. O que nós queremos junto com essas pessoas que têm boas ideias é fazer com que essas ideias virem prática, e que a prática tenha sustentabilidade.

Em algum momento pensou em desistir do trabalho social? Já pensou que não ia dar?

Essa expressão “não vai dar” eu nunca falo. Juro. Momentos de desespero, tive muitos. Nesse dia, você vê tudo escuro, anuviado. Mas eu nunca falei “eu não vou continuar”. Eu tenho um porquê, e quando tem um porquê muito forte ou um propósito muito forte, a gente aguenta.

Qual tem sido especificamente o trabalho de vocês em Brumadinho?

Queremos que as pessoas tenham perspectiva. Mas como ter futuro num caos, onde a lama levou quase tudo? Então num primeiro momento nós chegamos para resgatar pessoas que estavam vivas, mas morrendo. Que precisavam ser resgatadas no mínimo, que é a dignidade. Depois desse acolhimento, agora a gente está dando a força, para acreditarem em si mesmas. O segundo passo é fazer parcerias, entendendo o ciclo econômico da comunidade. Montar uma cozinha coletiva é um dos projetos novos, conseguimos o terreno lá. Vamos chamar já as cozinheiras, entender a história da comunidade. Vamos capacitá-las melhor, para ter um produto da cozinha coletiva, para se fortalecer e ali ter uma renda e ao mesmo tempo ter um local onde elas possam também se reerguer e ter esperança.

Você usa muitos termos da administração...

Também sou executiva e tive uma formação muito boa no Instituto de Formação de Líderes, que foi fundado pelo Salim (Mattar, empresário) da Localiza aqui em BH. Foi um diferencial na minha vida.

Episódios como o de Brumadinho servem para aumentar a disposição social das pessoas?

Sim. Porém, na hora do clamor da tragédia, aparece muita gente. O Brasil é lindo neste sentido. A gente teve mais de mil pessoas se cadastrando no NaAção para se voluntariar. Hoje, o volume é bem mais baixo. E é agora que mais precisa. O grande luto é agora. Então o voluntariado, essa força de ajudar o próximo, a tragédia traz. Mas o que segura mesmo fazer o bem é acreditar que a gente pode fazer isso o ano inteiro

Sua família não se sente em segundo plano?

A minha família me dá apoio inclusive financeiro para que eu possa continuar. Tenho que agradecer ao universo que me proporcionou grandes anjos na vida: meus dois filhos, meu sogro, meu marido.

A sede da ONG, mesmo sendo num prédio antigo, transparece muita vida.

Cada frase, cada foto na parede é a alma de uma pessoa que faz parte da história do NaAção.

Para o futuro, há novos projetos?

Sim. A gente quer fazer com que várias pessoas em Brumadinho retomem a sua vida. E também fechar grandes parcerias com novas entidades.

Você tem ideia de quantas pessoas já ajudou neste tempo de NaAção?

Só o Embaixadores atende mais de 500 crianças por rodada e está aqui conosco desde o início. É muita gente que já passou por aqui em pouquíssimo tempo.

Qual a maior dificuldade das ONGs no Brasil?

É exclusivamente financiamento. A falta do dinheiro é um resultado de uma coisa anterior, que é essa nossa incapacidade de conseguir comunicar e vender também como o mercado tradicional faz.

O terceiro setor ainda é dependente de financiamento público? É hora de se inserir no mercado?

Exatamente. Trazer uma seriedade para o terceiro setor é uma necessidade. Que a sociedade civil e as empresas privadas entendam que vale a pena e que é seguro investir no social. Estamos caminhando ainda a passos muito lentos, mas neste sentido. A questão social está batendo na porta, não tem como você fingir que nada está acontecendo. Porque isso começa a atrapalhar a vida de todo mundo. Se as empresas tiverem mais consciência disso, do papel delas, do tanto que elas podem atuar positivamente com o social e ganhar nesse intercâmbio, o mercado todo ganha.