Queridinho da vez na seara do emagrecimento rápido, o jejum intermitente vem conquistando cada vez mais adeptos. Nas redes sociais, toma conta das timelines por um motivo: promete emagrecer. E, garantem os seguidores, emagrece mesmo. Especialistas alertam, porém, para a falta de comprovação científica do método e para os riscos à saúde que pode trazer. Dentre eles, anemia, comprometimento dos rins e, em casos extremos, até a morte.

Um dos problemas é que o jejum prolongado – que pode chegar a 14 horas – causa alterações no funcionamento do organismo. Segundo o endocrinologista Paulo Augusto Carvalho Miranda, do Comitê de Especialidades da Unimed-BH, em jejum a glicose é gerada a partir da que está estocada no fígado. Porém, no processo, há baixa de insulina, fazendo com que o músculo não consiga utilizar a glicose como fonte de energia. A partir daí, são utilizados lipídios e a própria proteína, que é transformada em glicose. 

“Diferentemente da glicose, a gordura deixa resíduos que interferem no equilíbrio fisiológico do corpo. Se isso acontece de forma sistemática, há alterações no organismo. Um jejum prolongado pode causar lesões renais ou até mesmo desnutrição aguda”.

Por falta de nutrientes, os praticantes também podem desenvolver anemia, constipação intestinal e ter a atividade mental comprometida, diz a coordenadora de nutrição clínica do Hospital do Coração (HCor), Lílian Sant’Anna.

“Pesquisas recentes somente acompanharam por três, 12 e 24 semanas as pessoas que fizeram a dieta. Não há evidência do que pode ser causado em um, dois anos, por exemplo. Durante o jejum prolongado, uma pessoa corre o risco de morrer por conta da diminuição da glicose no organismo”.

Experiência
Para conhecer os prós e contras do jejum intermitente, a nutricionista Carine Ribeiro da Mata, de 30 anos, encarou um mês de dieta. A proposta tinha outros dois objetivos: perder peso e reduzir a glicose. 

De uma a duas vezes por semana, ela ficava de 12 horas a 14 horas sem se alimentar. Fora desse intervalo, a comida era balanceada e rica em nutrientes. 
“O índice de gordura passou de 26% para 20% e a glicemia estabilizou. Pretendo indicar aos clientes, mas esse tipo de jejum não pode ser feito por qualquer pessoa”, reforça Carine.

Especialistas que criticam o método alertam também que não há consenso sobre o tempo ideal de jejum nem sobre quais atividades físicas o seguidor da dieta poderá praticar.

A nutricionista Ana Paula Meireles, do Instituto Mineiro de Obesidade e Cirurgia (Imoc), avisa que a adoção da dieta exige o acompanhamento de um especialista. Diabéticos e pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, entretanto, não devem fazê-la em hipótese alguma. “Deve ser feita no máximo três vezes por semana. Hidratação também é essencial”.

Ela acredita que as descobertas do médico japonês Yoshinori Ohsumi sobre os mecanismos de autofagia possam dar uma luz aos estudos sobre o jejum.

Pesquisador do Instituto de Tecnologia de Toquio, Ohsumi foi laureado com o Prêmio Nobel da Medicina deste ano. Conhecida como “comer a si mesmo”, a autofagia é um dos processos que fazem as células se reciclarem. Dessa forma, de acordo com o estudioso, não comer traria benefícios, influenciando inclusive na longevidade. 

Organismo

A nutricionista do Oba Hortifruti, Renata Guirau, afirma que o tempo de resposta do organismo frente ao jejum varia muito de pessoa para pessoa. Ela garante, porém, que há uma tendência para as adaptações seguintes:

– Entre as quatro e as seis primeiras horas, a glicemia começa a baixar e pode aparecer a sensação de fome.
– Nas próximas seis a 14 horas, a glicemia fica baixa e estável e o corpo começa a fazer adaptações à privação de alimento. O corpo pode começar a produzir corpos cetônicos, causando mau hálito e aumenta o potencial de queima de gordura, utilizando-a como fonte de energia, frente a falta de glicose entrando na corrente sanguínea.
– A partir de 14 a 16 horas de jejum, o corpo começa a fazer diversas adaptações metabólicas e neuronais, que levam a redução de processos inflamatórios, melhora na resistência à insulina e na imunidade.