O maior espetáculo do planeta-bola, a Copa do Mundo, deixa a capital mineira em estado de festa. Bares abarrotados, sobretudo na Savassi, transbordam a tradicional hospitalidade e a fama de boêmios dos belo-horizontinos. Mas, se para os jovens e estrangeiros a euforia contagiante é uma agradável surpresa, para os mais velhos isso não é novidade. 
 
Embora o título de capital dos botecos seja recente, o gosto por uma boa prosa regada a tira-gosto e cerveja gelada vem desde o início do século 20, em meio ao surgimento dos primeiros bairros da cidade. A diversão na mesa do bar começou na Lagoinha. “Culpa” dos sempre festivos italianos, primeiros imigrantes a desembarcar na cidade.
 
Com o passar dos anos, o roteiro etílico mudou de endereço, mas a turma do sereno continua fiel às suas origens. Da efervescência da Lagoinha ao bucólico bairro da Floresta, entre os anos de 1920 e 1930. Décadas depois, foi a vez do histórico corredor político cultural da rua da Bahia, do entorno da avenida Santos Dumont e da charmosa região da Savassi.
 
Hoje, o mapa da boemia da capital ganhou novo traçado. É a chamada regionalização do setor, como destaca a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). São mais de 18 mil estabelecimentos espalhados pelas nove regionais. “Se há demanda, a oferta tende a crescer. É uma questão histórica e cultural. O morador sempre gostou de frequentar esses espaços e a tendência é surgir cada vez mais opções”, destaca o diretor executivo da Abrasel, Lucas Pêgo.
 
De olho neste filão sugerido pela Abrasel, muitos bares têm surgido na capital. É o caso da Objetoria, uma mistura de boteco, antiquário e creperia. Funcionando há apenas quatro meses no segundo andar do emblemático edifício Maletta, no Centro, o estabelecimento “alternativo” tem atraído a atenção de muitas pessoas.
 
Na semana passada, os amigos Michele Bouhid, de 25 anos, Fernando Carvalho, de 30, Juliana Paiva, de 31, e Daniela Galizzi, de 24. Eles ficaram encantados com o local que oferece carta variada de drinques. “Show de bola”, resume Fernando. “Estamos só começando, mas já planejamos abrir no horário de almoço”, conta um dos donos, o jovem Thiago Guimarães, de 35 anos. 
 
Enquanto alguns estabelecimentos buscam afirmação, outros estão consolidados em BH, como o Tizé Bar e Butequim. Com 47 anos de fundação, o estabelecimento é o mais antigo do bairro de Lourdes, na Zona Sul, e tem variada clientela. Entre os frequentadores mais assíduos está o empresário Jair Neves, de 65 anos. Há mais de três décadas ele faz questão de tomar sua cerveja por lá.
 
Morador da região, Jair vai ao Tizé todos os sábados e tem até mesa própria. “Sempre na 26 (número da mesa), ao lado de grandes amigos e colegas de trabalho. Até sozinho eu venho, pois adoro o ambiente e o atendimento diferenciado”, afirma.
 
Sobreviventes em meio ao crescimento
 
Tradicional ponto de encontro para o fim de noite de BH, onde a clientela está sempre em busca de um caprichado PF, o Bar do Bolão, em Santa Tereza, na Região Leste da cidade, completa 51 anos em 2014. A direção do estabelecimento já está na terceira geração de uma família. Um dos responsáveis pelo espaço, Luiz Claudio de Souza Rocha, de 41 anos, começou por lá aos 12 anos.
 
“É um trabalho puxado, de domingo a domingo. Mas, feito com muito prazer”, afirma Luiz. Entre os mais antigos da casa está o garçom Omar Paulo Campos, de 42 anos, que trabalha há exatos 14 anos no local. “Ratinho”, como é conhecido, também se orgulha na hora de falar do Bolão. “Esse bar faz parte da minha história e de milhares de mineiros”, diz.
 
Mesmo sentimento tem Orlando Silva, de 59 anos, dono de outro bar em Santa Tereza. O boteco, que hoje leva o nome dele e considerado o mais antigo do bairro, já foi de outros familiares e é um dos visitados da região. “Bar bom é assim. Parece que a gente está em casa, de tão simples que é”, diz a estudante Tina Faria, de 25 anos. 
 
Do Lucas
 
Também sobrevivente em meio ao crescimento da cidade está a Cantina do Lucas, que ocupa há mais de 50 anos um espaço nobre do edifício Maletta. Tombado como bem cultural imaterial, o restaurante mantém a mesma vocação de sua fundação: reunir jornalistas, artistas, poetas e tradicionais famílias mineiras.
 
Frequentador assíduo, o ator Emerson Rezende, de 43 anos, vai ao local pelo menos três vezes por semana desde 1995. Ele sabe de cor e salteado o nome dos garçons, dos cozinheiros e a lista de pratos do cardápio. O pedido preferido, conta, é Filé Olímpio – carne ao molho madeira acompanhada de arroz com açafrão.
 
Ao lado do amigo e sempre companheiro na mesa do bar, Beto Plascides, de 40, ele faz questão de assumir que é boêmio de carteirinha. “Minha segunda casa é aqui. Adoro o ambiente e sempre somos muito bem tratados”, conta.
 
Clientela fiel às suas origens
 
A construção da capital atraiu centenas de imigrantes italianos, árabes, portugueses, sírios e libaneses. A escritora e produtora cultural, Brenda Silveira, fez inúmeras pesquisas sobre a Lagoinha, primeira região considerada polo da boemia de BH.
 
“Além de abrigar uma população incrivelmente cosmopolita, tinha características muito peculiares. A maior delas era a sua boemia que permitia a existência de tipos humanos fantásticos e mais ainda, uma convivência harmoniosa entre essa população transgressora, como boêmios, artistas, vagabundos, cafetões e prostitutas, e a população ordeira, familiar e trabalhadora”, conta.