O desafio da nova equipe é o câmbio

José Antônio Bicalho / 30/11/2014 - 07h49
O que mais chamou minha atenção na cerimônia de apresentação da nova equipe econômica, na quinta-feira passada, não foi o tom conservador da fala do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Isso já era esperado. O governo precisava acalmar o mercado, irritadiço desde a derrota do candidato da oposição Aécio Neves.
 
A informação mais relevante veio mesmo do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que foi confirmado no cargo, de que manterá o programa de swap cambial (venda de dólares no mercado futuro), mas que não haverá expansão da oferta de contratos. A afirmativa pode sinalizar uma mudança significativa em como o governo tratará a questão do câmbio e da inflação.
 
O assunto é técnico, mas merece a atenção de todos já que estamos falando de remuneração das exportações e de balança comercial, de preços dos produtos importados, de viagens ao exterior, de investimento em moeda estrangeira e, por fim, de inflação e de crescimento econômico.
 
Controle do dólar
 
O swap cambial é o principal instrumento com o qual o governo controla a cotação do dólar. São contratos de entrega futura de dólares que são vendidos ao mercado financeiro. Os leilões desses contratos tem sobre o mercado o mesmo efeito da venda de dólares, ou seja, seguram a cotação da moeda americana. E o governo não deixa o dólar subir porque se os produtos importados ficarem mais caros os similares nacionais também tenderão a aumentar, pressionando a inflação num momento em que a meta corre o risco de ser estourada.
 
Mas, se por um lado o dólar barato ajuda a segurar a inflação, por outro prejudica grandemente a indústria nacional (que perde mercado para importados) e os exportadores (que perdem competitividade e recebem menos reais pelo que vendem lá fora), além de desequilibrar a balança comercial. Resumidamente, dólar barato representa a transferência de dinheiro e empregos para outros países.
 
Barreira dos US$ 100 bi
 
Pois bem, o governo vinha aumentando progressivamente o estoque de contratos de swap cambial nas mãos do mercado financeiro na tentativa de segurar a cotação. No dia 17 do mês passado, esse estoque alcançou a marca inédita dos US$ 100 bilhões, o que passou a representar pouco mais de 25% das reservas do país em moeda estrangeira. Para efeito de comparação, os contratos somavam US$ 38 bilhões quando o Banco Central deu início ao programa de intervenções diárias no mercado de câmbio, em agosto de 2013. No fim do ano passado, já ultrapassavam US$ 75 bilhões.
 
Se o governo reduzir, ou mesmo estabilizar, os volumes diários de venda de dólares no mercado futuro estará sinalizando que seu objetivo mudou, e que agora deseja promover uma alta progressiva da cotação da moeda americana. Isso seria bom para importantes cadeias industriais, para o agronegócio voltado para a exportação, para os produtores de commodities minerais e metálicas, o que traria reflexos positivos sobre o emprego e o consumo internos, elevando, por fim, o ritmo da economia. Poderia ser a saída para quebrar o ciclo de estagnação e voltar a crescer.
 
O risco da inflação
 
Mas, e a inflação? Esse é o perigo de se mexer na política cambial. A inflação próxima dos 6,5% é um risco. Se a ideia for deixar que o dólar entre numa curva de alta, quais instrumentos ou estratégia restaria ao governo para não perder o controle dos preços?
 
Para discutir esse assunto, procurei Cláudio Gontijo, um dos mais conceituados economistas de Minas, crítico contundente da gestão ortodoxa da economia. Ele concorda que o câmbio é o ponto mais importante a ser atacado pela nova equipe. “Todo mundo defende um câmbio mais elevado, em torno dos R$ 3,50, de Delfim Neto aos economistas de esquerda”, disse. “É uma questão de incentivar a indústria nacional ou aprofundar o processo de desindustrialização”.
 
O preço a ser pago
 
Mas, ele coloca um segundo problema, que não a inflação: o preço a ser pago pelo governo para elevar a cotação. O problema é que o swap cambial é um contrato que remunera o comprador pela variação do dólar ao longo do período de vigência. Se o dólar cai, ele perde dinheiro. Se sobe, ele ganha. E o contrário acontece para o Banco Central. Em setembro, por exemplo, o dólar subiu 9% e as perdas estimadas pelo governo foram de R$ 20 bilhões. E o estado das contas públicas federais não permite, hoje, margem de manobra para perdas de dinheiro, tanto que a promessa da nova equipe é de um arrocho (ou corte de despesas para gerar superávit primário) de cerca de R$ 50 bilhões.
 
Mas, vamos voltar à inflação e ao câmbio. Gontijo afirma que o pass through (repasse das mudanças da taxa de câmbio para os preços), hoje, seria de três para um. Ou seja, uma desvalorização de 30% do câmbio acarretaria uma inflação interna de 10%. Muita coisa.
 
Resta o juro
 
Então, se for para mexer no câmbio, o governo terá que segurar a inflação pelo juro. “Mesmo se o aumento da Selic for muito substancial, os ganhos por um câmbio mais realista valem a pena”, diz Gontijo. Para isso, porém, Joaquim Levy, na pasta da Fazenda, terá que mostrar que é uma pessoa de confiança do mercado, capaz de acalmá-lo, mas também de promover uma política econômica independente e fora dos ditames da ortodoxia. O contrário, afirma Gontijo, seria repetir a fórmula que é fracasso no mundo inteiro, baseada em políticas conservadoras recessivas e anti-crescimento, que impedem, por exemplo, os países da União Europeia a decolar.
 
Mas, Gontijo tem dúvidas de que a nova equipe econômica terá força, ou vontade, para quebrar o que chama de “pacto político contra crescimento”, baseado no tripé de metas expressivas de superávit, taxas de juros elevadas e liberalização completa do comércio internacional. “Ainda estamos seguindo Consenso de Washington, quando deveríamos seguir consenso de Pequim”, diz ele, referindo-se ao termo criado pelo economista americano Joshua Cooper Ramo para o modelo de desenvolvimento chinês que tem como carro-chefe os investimentos e o planejamento do setor público, que hoje é o principal contraponto ao neo-liberalismo adotado nas regiões sob influência dos EUA.

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