Mais de 60 carros arrastados, desespero de pessoas que ficaram ilhadas, lojas inundadas e lixo espalhado por toda parte. A cena registrada na avenida Vilarinho, em Venda Nova, na noite de terça-feira, é uma reprise do que ocorreu em 15 de dezembro de 1997, quando uma das piores enchentes da história de Belo Horizonte devastou a região. Especialistas afirmam que, por falta de obras de contenção, outras importantes vias da capital são vulneráveis a inundações.

A Vilarinho alagou completamente da esquina com a avenida Cristiano Machado (Shopping Estação) até a Liége, no bairro Jardim Europa. O motivo foi a falta de planejamento e de novas obras de drenagem, como a construção de galeria subterrânea para conter três córregos que deságuam no local.

Segundo a prefeitura, dessa vez o problema foi causado pelo volume de chuva, 57 milímetros em 40 minutos (equivalente a 40% do esperado para o mês), além do descarte de lixo nas ruas.

Mas, especialistas atribuem as tragédias no período chuvoso à ocupação urbana desordenada e à falta de obras mais complexas de drenagem na cidade. As intervenções são adiadas por sucessivos prefeitos.

A canalização do córrego Vilarinho, assim como a com construção da avenida que leva o mesmo nome, começou nos anos 80. Na época, a obra foi tratada como “avenida sanitária”. Mas as inundações não foram contidas.

Professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Recursos Hídricos da UFMG, Márcio Batista explica que a canalização do Vilarinho ficou subdimensionada com o tempo e o crescimento urbano, exigindo novas obras de drenagem. Segundo ele, a bacia de retenção do córrego, construída no começo dos anos 2000, tem porte médio e não comporta mais os efeitos da impermeabilização do solo e da expansão nas últimas décadas.

Especialista em hidrologia, o professor da UFMG Nilo de Oliveira Nascimento também aponta a necessidade de novas intervenções. Ele destaca que a prefeitura fez algumas obras em Venda Nova, mas “falta avaliar a funcionalidade delas”.

Assim como o professor Batista, Nascimento afirma que a região do Vilarinho tem histórico de inundações e apresenta riscos constantes. “O problema é geral na cidade, com muitas galerias pluviais subdimensionadas”.

Segundo ele, a canalização de córregos não é a solução e tem se mostrado muito vulnerável. “A revitalização dos cursos d’água, em vez de canalização, pode apresentar melhores resultados”.

PONTOS CRÍTICOS

Como mostrou o Hoje em Dia nas edições de 25 de setembro e 13 de outubro, intervenções para conter inundações em muitas vias se arrastam por anos, causando prejuízos a moradores e comerciantes. Mal começou o período chuvoso em BH e a população sente os impactos da falta dessas obras em vários pontos da cidade.

O problema é crônico também nas avenidas Bernardo Vasconcelos (bairro Ipiranga, região Nordeste), Prudente de Morais (Cidade Jardim, na Centro-Sul), Francisco Sá (Prado, na Oeste) e Assis das Chagas (Liberdade na Pampulha), por exemplo.

Comerciantes calculam prejuízos em meio ao mutirão de limpeza na Vilarinho
O prejuízo causado pela enchente na Vilarinho é calculado em R$ 15 mil pelo empresário Rogério Pinto da Silva. A enxurrada invadiu a oficina de alinhamento de carros dele, levou ferramentas e destruiu motores. “Todo ano é a mesma coisa. A prefeitura não tem uma solução e a população não colabora”, lamenta.

Ao lado da oficina, Rodrigo Araújo lamenta a perda de máquinas de perfuração. Segundo ele, a água subiu 40 centímetros. “A galeria pluvial é antiga e não comporta mais tanta água”.

Rafael Diniz resolveu improvisar: instalou barreiras na entrada da loja de colchões. “Perdi seis colchões. Achei até pouco, pelo estrago que a chuva causou”.

RESÍDUOS

O secretário-adjunto da regional Venda Nova, Leonardo Barros, afirma que a retirada de resíduos das galerias e bacias de contenção é feita a cada três meses e intensificada no período chuvoso. Mas ele não soube informar quando foi feita a última limpeza na Vilarinho.

Nessa quarta (28), segundo a prefeitura, 80 pessoas participaram da operação de limpeza em Venda Nova. Três reboques foram usados na a remoção dos veículos arrastados pela água.

A operação de limpeza contou com 20 caminhões basculantes, cinco caminhões-pipa, pá-carregadeira e retroescavadeira.
 

Veja vídeo sobre os trabalhos de limpeza e o depoimento do empresário sobre o temporal
 



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