Se os perigos da BR-381 já são velhos conhecidos dos mineiros, as obras de duplicação espalhadas pela rodovia têm criado novas armadilhas até para os motoristas mais experientes. Com a chegada das férias escolares, a atenção para quem vai viajar precisa ser redobrada. Asfalto em condições precárias, sinalização apagada, placas escondidas em meio à vegetação e desvios mal feitos são surpresas, principalmente à noite, quando a maior parte do caminho está tomada pela completa escuridão.

Um dos pontos críticos está no trevo, criado após as intervenções na estrada, na altura de Santa Bárbara, na região Central. Para quem chega à cidade, não há indicação clara da entrada correta. O condutor que faz o caminho inverso é obrigado a atravessar na contramão para acessar a via e seguir no sentido Belo Horizonte. A manobra ainda é realizada a poucos metros de uma curva que, para piorar, está em um declive acentuado. 

Quem decide fazer o trajeto à noite, para evitar congestionamentos, é obrigado a conviver com as surpresas da pista, onde a única iluminação é a dos faróis dos carros e caminhões. Em 2018, pelo menos 1.500 pessoas ficaram feridas em acidentes registrados na “Rodovia da Morte”, de acordo com levantamento mais recente da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) reconhece que há desgaste maior das faixas no solo e das placas devido à intensa movimentação durante a obra. O órgão admite que a situação cria riscos para quem trafega pela via e garante que “já notificou a construtora para que solucione os problemas com urgência”. 

Enquanto isso, usuários relatam desgaste excessivo durante as viagens. Morador de Santa Bárbara, o professor Marcos Margarida, de 62 anos, sempre sai de casa por volta das 4h para evitar engarrafamentos na vinda a Belo Horizonte.

Ele relata que, mesmo assim, o deslocamento que durava em média uma hora e meia, tem tomado um tempo quatro vezes maior, já que a terceira faixa foi retirada em muitos trechos da 381. “Ficou perigoso e cansativo, além de exigir muito mais atenção”, diz Marcos.

De 2007 a 2017, Minas registrou o maior número de mortes nas rodovias federais: 12.367 óbitos. O dado é da pesquisa “Acidentes Rodoviários e Infraestrutura”, da Confederação Nacional do Transporte (CNT)

Susto

Quem trabalha na região afirma que a maioria dos motoristas relata sustos quando passam pelos trechos com intervenções, à noite. Morador de Barão de Cocais, também na região Central, o comerciante Dilson Quaresma, de 52, conta que, para os que não estão familiarizados com a via, chegar à cidade é complicado.

“Quem vem de fora, normalmente, passa direto e erra a entrada para Barão. Têm poucas placas e as que existem estão escondidas no meio do mato. Sem um GPS, a pessoa não chega fácil”, conta.

Professor de Segurança Viária do Cefet-MG, Agmar Bento classifica como “lastimável” a situação da BR-381. O docente ressalta que viagens seguras dependem, em grande parte, da conservação e sinalização das estradas.

Para o especialista, o mais prudente é evitar o período noturno e respeitar os limites de velocidade, sobretudo, pelo fato de a BR estar muito acidentada. “O GPS, se usado de forma correta, pode auxiliar o motorista na tomada de decisões em uma área desconhecida, mas precisa estar atualizado e considerar os desvios, no caso de uma rodovia como essa”, ressalta.

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Em alguns pontos, mato alto às margens da estrada prejudica a visibilidade de placas

Concessão

A privatização da BR-381 é a principal esperança para usuários e comerciantes que trabalham às margens da rodovia. Segundo o Ministério da Infraestrutura, o leilão deve ocorrer no segundo semestre de 2020.

No mesmo pacote, a BR-262 também será concedida à iniciativa privada. Ao todo, as duas estradas somarão 672 quilômetros que serão entregues às concessionárias por 30 anos. “A 381 já foi a solução para o Brasil na década de 1950 e, hoje, é um dos nossos principais problemas na mobilidade. A parte da rodovia no Sul de Minas, que já foi concedida, mostra que essa opção tem tudo para dar certo”, avalia Vander Costa, presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Para o gestor, basta que o edital de concessão estabeleça, com clareza, as principais urgências da via para que as falhas sejam sanadas. “É possível, por exemplo, colocar a remuneração da concessionária vinculada à redução dos acidentes. É uma forma de incentivar que essas empresas invistam em segurança”, sugere Costa. 

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Além do mato alto, há até placas que impedem a visão de outras placas

Prazos

Autor de um estudo sobre a concessão da BR-381 à iniciativa privada, o senador Carlos Viana diz que a tendência é de redução significativa do índice de acidentes após o processo. O parlamentar estima que sejam necessários entre 7 e 15 anos para a conclusão da intervenção. Ele afirma que, mesmo com a cobrança de pedágios, os benefícios serão evidentes. Viana espera que a aprovação ocorra durante audiências públicas.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) não deu detalhes sobre o projeto, que prevê pedágios entre BH e Governador Valadares, no Leste de Minas. Por nota, o órgão informou que uma audiência pública amanhã vai iniciar o debate.

Lentidão

As obras de duplicação da BR-381 foram dividas em 11 lotes, dos quais apenas dois (3.2 e 3.3, de Jaguaraçu, no Leste do Estado, a Ribeirão Prainha, na região Central) foram concluídos, segundo informações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Entre a capital mineira e Monlevade estão os lotes que vão do número 1 ao 8.

De acordo com o órgão, serão concluídos nos próximos dias 11km do lote 3.1. “Além disso, serão entregues mais quatro de pista dupla totalmente nova entre os quilômetros 298 e 302. Até o final do ano, serão 66 quilômetros de pista modernizada e duplicada dos lotes 3.1 e 7”.

Pelo menos 112 mil veículos transitam diariamente pela BR-381 no trecho conhecido como “Rodovia da Morte”, entre Belo Horizonte e João Monlevade, segundo levantamentos realizados pelo Ministério da Infraestrutura

Há anos

O processo conturbado de duplicação da BR-381 se arrasta há anos e a execução das obras vem enfrentando empecilhos judiciais desde 2014, conforme mostrou o Hoje em Dia, em outubro de 2018.

Uma das empresas que fazia parte do consórcio vencedor da licitação para executar as intervenções em quatro lotes foi alvo de denúncias na operação “Lava Jato” por envolvimento em corrupção. O processo acabou motivando a investigação de cinco integrantes da construtora e a condenação de ex-funcionários.

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Após o anoitecer, apenas a luz dos carros ilumina a via

Previsões

Até que a concessão à iniciativa privada seja concretizada, a lentidão das intervenções deve permanecer. A licitação do trecho entre a capital e Caeté até o momento não foi realizada. Foram duas tentativas frustradas para a contratação de interessados em executar os trabalhos no lote 8, mas ainda não há expectativa para o início. Outro problema diz respeito às desapropriações de imóveis construído às margens da estrada. Muitos processos se arrastam na Justiça sem previsão de desfecho.

Sem resposta

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) foi procurada para sobre os perigos que a obra de duplicação tem causado aos motoristas que trafegam pela BR-381, mas a corporação não disponibilizou fonte nem respondeu aos questionamentos feitos por e-mail.