Um pequeno espaço de respiro no deserto de concreto em que se transformou a capital mineira. Talvez seja essa a responsabilidade das 20 palmeiras recém-plantadas no corredor do BRT da avenida Santos Dumont, no Centro de Belo Horizonte. Atitude com a qual os gestores da cidade sinalizam contemplar obras e intervenções públicas com projetos paisagísticos.

E não se trata apenas de vegetação. O paisagismo deve conter um conjunto de elementos, construídos ou naturais, que ajudam a compor o ambiente, conforme avaliam urbanistas ouvidos pelo Hoje em Dia.

As próprias obras do BRT, aponta a paisagista, arquiteta e urbanista Marieta Maciel, são carentes desse cuidado. “No projeto, foram observadas apenas questões para mobilidade e circulação e ignorados dispositivos para compor o ambiente e dar conforto aos pedestres e usuários”.

Outro projeto frustrado sob esse olhar é o do Boulevard Arrudas, na avenida dos Andradas, lembrou Marieta, que também é professora do curso de arquitetura e urbanismo da UFMG. Há muitas áreas impermeáveis e falta manutenção nos poucos jardins.

Verde em falta

Não é preciso ser especialista no assunto para constatar a falta que a presença do verde faz. Basta uma visita em pontos importantes da capital. Na Praça da Estação, por exemplo, apenas duas árvores de grande porte viraram abrigo para quem espera pelos ônibus.

“Em alguns horários é difícil até conseguir uma pontinha debaixo da sombra”, observou Maria Ribeiro, que todos os dias passa pelo local. “Não reclamo apenas pelo calor. Também é ruim para o meio ambiente. Era para ser um ponto turístico, mas ninguém quer ficar aqui”.

Membro do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil em Minas, Sérgio Myssior cita ainda como um mal exemplo a esplanada do Mineirão, apelidado em publicações especializadas como “Mineirão do Saara”. “Ainda não houve tempo para as árvores plantadas no local crescerem. Mas é certo que a esplanada merecia um tratamento paisagístico mais incrementado em vista da quantidade de vegetação suprimida do local”, disse.

Myssior lembra que bons projetos de paisagismo são importantes para fazer com que os cidadãos tenham mais prazer em viver na cidade. Algumas das intervenções de sucesso em BH, segundo ele, são a praça Diogo de Vasconcelos (na Savassi) e a Praça da Liberdade, que privilegiam o pedestre em detrimento dos veículos.

Nem sempre a falta do verde se explica

A ausência de um projeto paisagístico, na opinião de Joel Campolina, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais, só se justifica quando há um conceito por trás da intervenção.

Como na praça em frente à Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha. “Lá, não existe uma vegetação ostensiva. Preferiram trabalhar com uma área mais aberta”, afirmou. Para ele, até mesmo na Praça da Estação, a falta de verde é explicável: “É um espaço para shows e grandes eventos. As árvores inviabilizariam a amplitude visual”.

Mas nos corredores do BRT, por outro lado, ele não conseguiu enxergar uma conceituação nítida que justifique a ausência de vegetação mais acolhedora.

Sem lei

Apesar desses bons exemplos, projetos paisagísticos, de fato, têm sido desprezados em obras públicas.

“Não existe uma lei que obrigue o verde em toda intervenção da prefeitura. Mas, entre os especialistas há um pressuposto de que isso seja levado em consideração. A tendência é simplificar a execução das obras, em nome de uma velocidade maior”, observa Campolina.