Perda significativa de rendimento e aumento da exposição ao risco de contrair o novo coronavírus. Esses foram os principais impactos da pandemia sobre os motoristas de aplicativo de transporte individual, conforme estudo realizado pelo Observatório Social da Covid-19 da UFMG.

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Parte dos motoristas teve que se afastar das atividades por conta da pandemia

Em nota técnica divulgada nesta terça-feira (27), os pesquisadores ressaltaram que as medidas de distanciamento social implantadas nas cidades levaram as pessoas a saírem menos de casa, reduzindo a mobilidade. O documento é assinado pelo professor Marden Campos, do Departamento de Sociologia da instituição de ensino, e pela aluna Ludmila Beatriz, bolsista do Observatório Social.

Para as conclusões relatadas, a equipe analisou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad-Covid, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE) e de levantamentos anteriores, com o intuito de captar tendências da atividade nos últimos anos.

Segundo a Pnad 2011, havia 614 mil condutores de veículos para transporte particular que trabalhavam por conta própria no Brasil, número que se manteve praticamente estável até 2015, quando foram registrados 643 mil trabalhadores na mesma condição. Com a chegada dos aplicativos nos anos seguintes, cresceu a quantidade de profissionais no setor.

Na Pnad Contínua de 2019, foram registrados 1,145 milhão de condutores de automóveis, caminhonetes e motocicletas que trabalhavam por conta própria, o que indica um aumento de mais de 500 mil trabalhadores no período. 

Na pesquisa referente a abril de 2020, foram contabilizadas 1,124 milhão de pessoas nas categorias motorista de aplicativo, táxi, van, mototáxi ou ônibus, relatou a nota técnica.

Conforme os estudiosos da UFMG, 36% desses trabalhadores chegaram a perder a renda no primeiro mês da pandemia. Entre os motoristas que continuaram trabalhando, a média de horas por semana, que era de 45 horas, caiu para 20 horas. 

Em Belo Horizonte

Em outra pesquisa realizada pelo Departamento de Sociologia da UFMG, um grupo de motoristas de aplicativos da capital é acompanhado para verificar os impactos da pandemia sobre a atividade.

De acordo com o projeto Novas Sociabilidades na Era Digital, os profissionais entrevistados se depararam com duas situações distintas. Quem tinha outra fonte de renda ou alguém na família para custear as despesas parou de trabalhar em 18 de março, quando decretada a quarentena na capital.

Também houve motorista que preferiu se afastar das atividades porque faz parte do grupo de risco ou porque se sentiu ameaçado pela pandemia. Uma das pessoas ouvidas, inclusive, relatou crises de ansiedade que a impediam de sair para atender aos passageiros.

Sem possibilidade de parar

Outro grupo de motoristas afirmou que não podia parar, pois dependia do trabalho com o aplicativo para sobreviver. Além da incerteza quanto ao rendimento, também relataram riscos e insegurança, temendo assaltos.

Ainda segundo  o estudo, os profissionais disseram ter sido necessário trabalhar mais horas para tentar ganhar no máximo o que recebiam antes da pandemia.  Os dados mais recentes do acompanhamento dos motoristas, referentes a outubro, mostram que muitos deles voltaram a atuar pelas plataformas. 

“Em síntese, tanto os dados das pesquisas domiciliares como o projeto de pesquisa desenvolvido na UFMG mostram as principais facetas do trabalho digital: sua enorme vulnerabilidade em relação a aspectos conjunturais, vivendo em uma situação em que se sobrepõe diversos níveis de insegurança, tanto em relação aos rendimentos quanto à segurança e, recentemente, quanto aos perigos de adoecimento. A contínua precarização das condições de trabalho que vem ocorrendo ao redor do mundo todo e que tem sido acelerada pelo trabalho em plataformas digitais parecem ter ganho um novo impulso com a pandemia do novo coronavirus”, concluíram os pesquisadores.

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