A migração de pacientes da Grande BH e do interior de Minas, que superlotam as Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) da capital – mostrada Nesta terça-feira (2) pelo Hoje em Dia – também compromete o atendimento especializado. Todos os dias, ônibus e vans de várias localidades do estado ocupam ruas da região hospitalar da capital. A busca desses pacientes é por serviços que deveriam ser disponibilizados em suas regiões, mas não são.

Dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) mostram que, por mês, são realizadas 100 mil consultas e exames especializados por meio da Rede SUS-BH. Desse total, 40% são de pacientes do interior.

Os procedimentos são pagos pelo SUS ao município. A tabela é calculada de acordo com o procedimento realizado, porém, mesmo recebendo pelo serviço prestado, a fila é longa.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-MG), Fábio Guerra, a carência de atendimento no interior acaba afetando diretamente a qualidade do serviço prestado aos pacientes em BH.

“Eles precisam percorrer grandes distâncias para a realização de um tratamento, que, em alguns casos, chega a ser interrompido por falta de recurso do doente e até mesmo pela demora”.

Estimativa

Ainda de acordo com a SMS, na capital são realizadas 3.500 cirurgias eletivas (programadas) por mês, em média, sendo que 40% dos pacientes agendados também são do interior de Minas. Em nenhum dos casos a secretaria informou os números absolutos.

A Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos de Minas Gerais (Federassantas) enfatiza que apenas a descentralização do atendimento irá desafogar o serviço na capital.

“Com a ampliação da rede, o gasto que os municípios têm com o transporte de paciente poderia ser investido em outras demandas de saúde”, diz o presidente da instituição, Francisco Figueiredo.

Enquanto isso não acontece, pacientes do interior enfrentam peregrinações para ter acesso a serviços mais complexos. A lavradora Márcia Lopes, de 43 anos, percorre, todo mês, 440 km de Santana de Manhuaçu (Zona da Mata) até a capital para tratamento cardíaco. “Se não fosse o Hospital das Clínicas, já estaria morta”.

A também lavradora Waldirene Santos, de Pitangui (Central), busca atendimento para a filha Tainá Vitória, de 9 meses, desde que a menina nasceu, prematura e com síndrome de Down. Ela pagou por quatro ultrassonografias devido à demora no atendimento em sua cidade. “Pitangui não tem pediatra nem exames especializados. Acredito que isso tenha dificultado o diagnóstico”.

A Secretaria de Estado de Saúde informou que tem se reunido com prefeituras para analisar a situação.

Instituições filantrópicas sugerem mudanças no modelo de financiamento

Hospitais filantrópicos e santas casas querem renegociar dívidas com bancos e implantar um novo modelo de financiamento do setor, com reajuste da tabela de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), além do fim dos atrasos sucessivos no repasse de verbas públicas.

As demandas foram discutidas em audiência pública da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa. Alguns hospitais reduziram o atendimento por não conseguirem arcar com salários e custos de manutenção.

Para o vice-presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos de Minas Gerais (Federassantas), Daniel Porto Soares, o que mais aflige as 350 instituições no estado é o financiamento dos serviços, porque, de acordo com ele, de 80% a 90% dos atendimentos são feitos pelo SUS.

“Há uma dívida de R$ 70 milhões por serviços executados e não pagos até o momento pelo SUS, referente ao período de 2011 a 2015”, disse Soares. Ele explica que, no ano passado, houve recomposição do teto financeiro, o que amenizou a situação.

Solução

O dirigente da Federassantas aponta como saída para a crise o remodelamento do financiamento, hoje considerado inadequado à rede hospitalar filantrópica. De acordo com Soares, o financiamento tem de ter regularização e pagamento em dia. “Atrasos de 60, 90 e até 120 dias não podem mais ocorrer”.

Mais de 130 hospitais filantrópicos foram fechados de 2010 a 2014 em Minas. O presidente da Comissão de Saúde da Assembleia, Arlen Santiago (PTB), propôs aos dirigentes de hospitais filantrópicos um movimento rumo a Brasília para tentar mais recursos para o setor.


(*) Com Ricardo Rodrigues