Sônia teve a loja de queijos assaltada e perdeu todo o dinheiro para pagar o salário dos funcionários. Luiz teve o caminhão de entregas roubado a poucos metros do depósito de materiais de construção. Marcelo encontrou a papelaria arrombada durante a madrugada. 

Além de alvos dos criminosos, os três compartilham a realidade de insegurança vivida no Padre Eustáquio, região Noroeste de BH. Com exceção do Centro, o bairro é o campeão de roubos consumados na capital. No local, as ocorrências cresceram 145% de 2012 a novembro de 2016, segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). Só no ano passado foram 661 registros por lá. Na capital, ao todo, 43.143.

“Há promessas que o policiamento aumentará. Estamos na expectativa” (Alexandre Batton, presidente da Associação de Moradores do Padre Eustáquio)

Quem vive na região reclama da falta de policiamento ostensivo, já que o bairro possui saídas para o Anel Rodoviário, o que seria um facilitador para a fuga de assaltantes. Outro fator apontado pelos comerciantes é a existência de muitos moradores idosos, que seriam alvos mais fáceis para os criminosos. 

“É algo constante e não se toma uma providência. Hoje eu gasto mais de R$ 3 mil por ano com segurança particular. Em uma outra loja que temos, a alguns quarteirões daqui, os bandidos envenenaram minha cachorra para invadirem o local durante a noite. O bairro está largado”, protesta Luiz Mauro Silva, proprietário de um depósito de materiais de construção na rua Padre Eustáquio. 

A comerciante Sônia do Carmo, que há 12 anos levou a loja de queijos do Mercado Central para o Padre Eustáquio, conta que aos domingos, quando trabalha sozinha, espera pelos clientes do lado do estabelecimento. “Depois que fomos assaltados passamos a desconfiar muito mais”, lamenta.

Sem trégua

No Santa Efigênia, na região Leste, a situação é parecida. Até novembro, 581 ocorrências foram registradas, o segundo maior número entre todos os bairros de BH. Na avenida Mem de Sá, taxistas e comerciantes relatam uma onda de assaltos a mão armada, praticada quase sempre por criminosos de moto, agindo em dupla.

Roubos
DESCONFIANÇA – Quando trabalha sozinha aos domingos, a comerciante Sônia fica do lado de fora à espera dos clientes

Há duas semanas, um supermercado que estava lotado de clientes foi assaltado à luz do dia. À noite, os relatos de roubos de celulares nos pontos de ônibus são recorrentes. O taxista Rafael Pereira, que trabalha há 15 anos na mesma via, afirma que o problema não acontece por falta policiamento. “As viaturas passam por aqui o dia todo. Polía tem, mas isso não intimida mais os criminosos. A situação está fora de controle”, critica. 

A Sesp informou que o posicionamento sobre a situação dos bairros cabe às polícias Civil e Militar. A primeira corporação agendou uma entrevista para hoje. A PM não se manifestou até o fechamento da edição.

Crise econômica

O crescimento da violência em Belo Horizonte nos últimos cinco anos coincide com a mais recente recessão brasileira. Enquanto os números da economia afundaram e o desemprego explodiu no país, os roubos na capital mineira aumentaram 87% de 2012 a novembro de 2016 (confira a infografia abaixo), de acordo com dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp).

A relação entre desempenho econômico e criminalidade não é consenso entre estudiosos da área, mas há quem avalie que o cenário no Brasil possa ter influenciado diretamente no aumento das ocorrências na cidade.

A taxa de brasileiros que perderam o emprego, por exemplo, saltou de 4,3% em 2013 (a menor desde 2002) para, atualmente, 12% da população economicamente ativa.

Sem ter uma renda, muitas pessoas podem debandar para o mundo do crime. Esse é o posicionamento do especialista em segurança pública Islande Batista. Ele também lembra que a sensação de impunidade contribui para a escalada da violência.

“Sempre que temos recessão, os furtos e roubos aumentam. Não justificam, mas, queira ou não, algumas pessoas que realmente estão vivendo momento de crise acabam praticando algum delito. Todo mundo é honesto, trabalhador, mas isso até quando não está faltando leite em casa”, diz Batista, que também é ex-delegado e chefiou o Departamento de Crimes Contra o Patrimônio da Polícia Civil mineira.

Integração

Atualmente exercendo o cargo de secretário municipal de Segurança Urbana e Patrimonial em Belo Horizonte, o sociólogo Cláudio Beato reforça a análise de Islande Batista. “É provável que isso (mais roubos) vai acontecer cada vez mais com a crise econômica. Tem um estoque maior de pessoas que vão acabar no mundo do crime”, ressalta. 

Na tentativa de frear os índices da violência na cidade, Cláudio Beato afirma que irá se reunir com a PM com o intuito de planejar ações integradas para combater os roubos na capital. 

arte geografia do crime em bh