A BHTrans tem uma meta desafiadora pela frente: chegar ao fim de 2016 com 240 quilômetros de ciclovias construídas na capital. Na prática, significa aumentar em mais de três vezes o espaço que, atualmente, é destinado ao transporte por meio de bicicletas.

Apesar do histórico da empresa, que em anos anteriores não cumpriu os planos traçados a esse respeito, especialistas em transporte e ciclistas acreditam ser possível alcançar o novo objetivo, ainda que o prazo seja apertado.

Até então, o ritmo das obras foi bastante lento, observa Guilherme Tampieri, gestor ambiental e integrante da União de Ciclistas do Brasil. Em 2012, por exemplo, a prefeitura prometeu que a cidade chegaria a ter 120 quilômetros de pistas exclusivas para magrelas em 365 dias; não completou 50. No ano seguinte, a marca era de 145 quilômetros, mas não passou dos 60. Desta vez, porém, o resultado pode ser diferente porque as intervenções devem ser feitas com recursos federais. 

Verba

Por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC Mobilidade), a BHTrans recebeu R$ 20 milhões para investir em ciclovias – valor suficiente para bancar 90% das intervenções (150 dos 166 quilômetros previstos). Segundo a empresa, cronograma e rotas já foram elaborados.

A Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) será responsável por fazer a licitação. Após o contrato ser assinado, a empresa vencedora terá seis meses para desenvolver os projetos executivos das faixas destinadas às bicicletas. Em seguida, será licitada a obra de implantação das mesmas.

Atendendo a uma antiga reivindicação dos ciclistas de BH, os locais a ser contemplados com obras foram listados por um grupo de cidadãos que se locomove por meio de bikes. Eles também irão em cada trecho para sugerir como a ciclovia deve ser feita.

O dentista Carlos Edward Campos, de 49 anos, faz parte desse time. Ele conta que, em fevereiro, foi feito um calendário de visita a todos os pontos. “Temos um formulário padrão que é preenchido por cada ciclista. Até abril, entregaremos um relatório à BHTrans”, informou. Para a avenida Silviano Brandão, região Leste da capital, por exemplo, a ideia inicial é que as faixas sejam bidirecionais e estejam no canteiro central, evitando a disputa de espaço com garagens, pontos de ônibus e estacionamentos.

Desagrado

As mudanças podem encontrar a resistência de motoristas e moradores, como aconteceu, recentemente, no Barreiro.

Em fevereiro, cerca de 50 pessoas participaram de um protesto para tentar impedir a construção de uma ciclovia na rua Barão de Monte Alto, no bairro Cardoso. Eles alegaram que as obras tirariam espaço dos veículos, que já enfrentam congestionamentos constantes na região.

Pensamento pequeno e ultrapassado, na avaliação de Frederico Rodrigues, doutor em engenharia de transporte. “Essa reivindicação vai na contramão do que o mundo todo faz. Ainda que atrasada, BH está tentando seguir essa mesma linha”.

 

BHTrans terá que triplicar ciclovias até 2016

 

Incentivo para uso de bike deve vir junto à construção de faixas

Somente mais rotas cicloviárias não reduzirão o número de veículos nas ruas, como espera a BHTrans. Segundo Frederico Rodrigues, doutor em engenharia de transporte, as obras devem vir acompanhadas de outras ações que incentivem o uso das bicicletas.

“É preciso infraestrutura como estacionamento e vestiário nas empresas, conexões com outros meios de transporte e, sobretudo, mais segurança aos ciclistas”, enumera.

Para atender ao último quesito, Marcio Aguiar, professor de engenharia de transporte e trânsito da Universidade Fumec, acrescenta, ainda, a importância de reduzir a velocidade permitida para carros em alguns quarteirões – a exemplo de Nova York – e até endurecer a legislação para os motoristas que colocarem em risco os que estão de bike.

Quem se locomove sobre duas rodas sabe bem os perigos que corre, como conta Hélio de Sousa Lima Filho. Todos os dias, ele pedala cerca de nove quilômetros de casa, no bairro Palmares, ao trabalho, no Funcionários. No trajeto, encontra apenas 400 metros de faixas destinadas para esse fim.

“O restante do caminho faço entre os carros. A lei de trânsito permite ao ciclista andar no asfalto, mas quase todos os dias ouço xingamentos de motoristas que acham que meu lugar não é ali”, reclama.

Sem as devidas alterações, outro objetivo da BHTrans poderá ficar comprometido: chegar a 2020 com 6% dos deslocamentos sendo feitos por meio de bicicletas. O último dado oficial sobre o assunto, divulgado em 2013 na pesquisa Origem e Destino, realizada pela Secretaria de Estado Extraordinária de Gestão Metropolitana, dava conta de que apenas 0,4% das viagens na capital são feitas dessa forma.