Casarões e comércios centenários que contam a história da população que construiu Belo Horizonte estarão no centro das medidas de proteção do patrimônio da capital nos próximos meses. Com o crescimento da cidade e a edificação do complexo de viadutos, os imóveis da região da Lagoinha, que já foi um tradicional reduto boêmio e abrigava operários, acabaram se degradando, o que motivou a decisão da prefeitura.

Os bairros Lagoinha, Bonfim e Carlos Prates fazem parte de um total de 23 conjuntos urbanos protegidos pelo município. Em dezembro de 2016 a PBH colocou em processo de tombamento 374 edificações da região. Segundo a diretora de Patrimônio Cultural, Arquivo Público e Conjunto Moderno da Pampulha, Françoise Jean, a recuperação dos bens do local terá mais agilidade porque muitos prédios deteriorados precisam de “intervenções mais rápidas”, como os das ruas Itapecerica e Bonfim, às margens da avenida Antônio Carlos. Ao passar pelas vias é possível ver propriedades com aspecto abandonado, sem portas ou teto.

A pressão para priorizar o tombamento e a preservação da Lagoinha, aos olhos do arquiteto e urbanista Flávio Carsalade, se justifica porque o “bairro tem patrimônio belíssimo, que mistura memória urbana, social, e importância estratégica porque une o Centro a outros locais da cidade”. Segundo ele, isso poderia se perder no processo de deterioração. 

“O bairro tem patrimônio belíssimo, que mistura memória urbana, social, e importância estratégica porque une o Centro a outros locais da cidade” (Flávio Carsalade, arquiteto e urbanista) 

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Escola fundada nas primeiras décadas do século 20 está em processo de tombamento

Urbanização

A degradação ocorreu, ao longo dos anos, por mudanças promovidas pela prefeitura, como a duplicação do corredor de tráfego que liga a Pampulha ao Centro, em 2005. 

“A região da Lagoinha sofreu muito com as intervenções urbanas e a expansão viária que o próprio município promoveu, como o túnel e a Antônio Carlos. Com isso, a ocupação se tornou menos favorecida, porque o local deixou de ser amistoso. Ninguém quer morar na beira do viaduto”, explica Françoise. 

Com o tombamento, proprietários de imóveis nessas localidades poderão ter acesso a recursos financeiros como o Fundo Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural e leis de incentivo para promover reformas e recuperar os prédios. 

Os bairros Lagoinha, Bonfim e Carlos Prates fazem parte de um total de 23 conjuntos urbanos protegidos pelo município

Marginalização

Morador da rua Itapecerica há quatro décadas e frequentador do local desde 1950, o aposentado José Maria de Oliveira, de 86 anos, lembra as mudanças ao longo do tempo. “Antes aqui era cheio de armazéns de secos e molhados e tinha um bonde que trazia as pessoas. Desde que construíram os viadutos ficamos isolados”, afirma Oliveira, que vive em uma das casas em processo de tombamento. 

Arley Langa, de 42 anos, gerente de um antiquário que vende itens históricos para clientes de alto poder aquisitivo, conta que a procura in loco caiu nos últimos anos. “Com as reformas, muitos lojistas saíram daqui. É uma área que ficou mal falada, infelizmente. Há clientes que pedem para a gente levar as peças em casa por medo de vir comprar. O tombamento é muito importante para a preservação da história, mas tem que ser acompanhado de assistência para a recuperação dos imóveis”, reforça. 

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Rua Itapecerica é famosa por seus antiquários e mestres restauradores

Baixios de viadutos

A proposta de acelerar os tombamentos de edificações na Lagoinha ocorre ao mesmo tempo em que sete baixios de viadutos do bairro passarão a ser ocupados pela iniciativa privada. Os locais, hoje habitados por pessoas em situação de rua, podem virar quadra poliesportiva, feira de produtos orgânicos ou artesanato, drive-thru e até mesmo estacionamento, de acordo com a PBH. Um chamamento público para dar um destino às áreas foi aberto no início deste ano e fica aberto até o próximo dia 27. 

Pelo menos 87 homens e mulheres em situação de vulnerabilidade social transitam e vivem na região, conforme cadastro da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAAS). Com a duplicação da Antônio Carlos e a proximidade da Pedreira Prado Lopes, aglomerado em que há tráfico de drogas, o bairro se tornou um espaço que concentra moradores de rua e dependentes químicos. 

Como lidar com essa população é uma das principais questões que permeiam a revitalização. Professor da Faculdade de Arquitetura da UFMG, Flávio Carsalade frisa ser preciso recuperar espaços históricos sem deixar de lado o cuidado humano. Segundo ele, quando as reformas são feitas desconsiderando esse fator, pode ocorrer o processo de gentri-ficação. 

“Muitas vezes, quando um lugar é revitalizado, ele se valoriza e a especulação imobiliária aumenta, pois a procura por um imóvel cresce e há o risco de se expulsar as pessoas. Isso não pode ocorrer. As mudanças precisam sempre olhar para a população local”, diz Carsalade.

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Prédios deteriorados, como os da rua Itapecerica, precisam de intervenções mais rápidas

Assistência

Questionada, a PBH garantiu que não irá retirar compulsoriamente os moradores de rua da região. A prefeitu[/TEXTO]ra ainda afirmou que realiza busca ativa dos sem-teto para oferecer acesso a serviços de assistência social, como saúde, educação, trabalho e moradia, além de reinserção familiar, quando possível. 

“O Centro Integrado de Atendimento à Mulher, localizado no bairro Lagoinha, atende mulheres em situação de rua e em uso abusivo de álcool e outras drogas, e que vivem naquela região, com foco na redução de danos”, informou, por nota.

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“É uma área que ficou mal falada, infelizmente. Há clientes que pedem para a gente levar as peças em casa por medo de vir comprar”, diz Arley Langa, dono de antiquário