“Ver essas coleções queimadas gera um sentimento de frustração – e até de culpa –, que é difícil contornar: como pode um acervo desses queimar?” Com essa frase, a coordenadora do Centro Especializado em Arqueologia Pré-histórica do Museu de História Natural da UFMG, Mariana Cabral, demonstra o sentimento da equipe frente ao trabalho de recomposição do acervo perdido no incêndio ocorrido no dia 15 de junho.

Em texto publicado pela universidade nesta segunda-feira (29), Mariana conta que a equipe não só trabalha com o levantamento de material que sobreviveu ao incêndio, mas também desenvolve uma nova coleção, a do incêndio, “uma memória dolorida que não podemos deixar para trás”.

“A conservação disponibiliza o saber e as técnicas para garantir a preservação do acervo resgatado, que está presente nos mais variados graus de combustão: desde as suaves coberturas de fuligem à transformação absoluta em cinza, passando por amálgamas inéditos que misturam embalagens de vidro com pedaços da coleção, invólucros de plástico que aderem às peças que protegiam, metais retorcidos que ainda sustentam delicados ossos humanos”, afirmou a coordenadora.

Mariana explica que a coleção arqueológica do museu contava com algumas dezenas de esqueletos, oriundos de diversos sítios arqueológicos de várias regiões de Minas. Segundo ela, o incêndio não só afetou o trabalho científico, como também a história dos nossos ancestrais.

“Essas pessoas, que foram cuidadosamente sepultadas por suas famílias e grupos, há 1 mil, 2 mil, 5 mil, 8 mil anos, foram escavadas em pesquisas científicas conduzidas desde meados do século passado por pesquisadoras e pesquisadores que tinham no Museu o ambiente institucional para receber e guardar essas coleções”, disse Mariana.