Belo Horizonte deve receber, no Carnaval deste ano, público equivalente ao dobro da população da cidade: 5 milhões de pessoas. Com o crescimento exponencial da festa, atitudes consideradas racistas, machistas ou homofóbicas nos blocos não são toleradas por muitos foliões. 

Desta vez, para não deixar dúvidas, o recado a quem vem conhecer o evento pela primeira vez, ou mesmo aos desavisados, foi dado de forma institucional. Por meio do Conselho Municipal de Igualdade Racial, a Prefeitura de BH publicou, nesta quinta-feira (13), no Diário Oficial do Município (DOM), uma série de orientações para práticas não discriminatórias no Carnaval que passam pelas fantasias, marchinhas e, claro, atitudes. 

A ideia é curtir a folia respeitando a todos. Isso inclui não usar uma etnia indígena, por exemplo, como fantasia nem entoar marchinhas, por mais populares que sejam, que perpetuam mensagens racistas. 

Confira as orientações:

1. “O teu cabelo não nega, mulata. Porque és mulata na cor” – Chega de Assédio!:

As marchinhas são tradição, porém, algumas perpetuam o racismo velado em expressões de bestialização e hipersexualização do corpo negro. “Teu Cabelo não nega”, “Mulata Bossa Nova” e “Negra Maluca” materializam o imaginário social pejorativo em estereótipos. Fantasiar-se de mulher negra empregada doméstica ou enfermeira sexy é conceber a mulher negra como objeto sexual.

 

2. Blackface não é fantasia!: 

Blackface é técnica teatral usada para pintar pessoas brancas de negras de maneira caricata. Destacou-se no filme “O Nascimento de uma Nação”, o qual contribuiu no ressurgimento da Ku Klux Klan nos EUA. Os protagonistas brancos interpretavam negros como pouco inteligentes e sexualmente agressivos. Isso culminou em práticas reais de linchamento e adoção da Lei de Segregação Racial. O blackface carrega a simbologia do apartheid; e no Brasil não deve ser confundido com homenagem.

 

3. Cabelos e símbolos da negritude são sagrados, e não adereço de Carnaval!:

O uso de perucas “blackpower”, “nega maluca”, “dreadlocks” e “touca com tranças” - entre outras representativas das culturas africanad - têm sido prática corriqueira e desagradável. Traduzem-se como desrespeito aos símbolos da resistência negra às formas padronizadas de beleza e outras imposições aos corpos negros. Outra bola fora é usar roupas próprias das religiões de matriz africana ou de orixás, como Iemanjá, de forma descontextualizada. 

 

4. Índio não é fantasia:

As vestimentas e ornamentos indígenas compõem sua tradição e, por usá-las, indígenas são frequentemente violentados: ônibus não param, estabelecimentos impedem sua entrada, sofrem deboche e têm que lidar ainda com atrocidades às suas terras, águas, bichos e plantas. Em muitas culturas, o cocar é sagrado e próprio para ritos especiais. Usar objeto sagrado de maneira recreativa é reduzir a cultura indígena ao exótico; trata-se mais de um sinal de poder e dominação e não de homenagem. Não passe vergonha ao usar cocar pra curtir o bloco enquanto a população indígena é vítima de genocídio!

 

5. Cigano é legal só no Carnaval?

Você conhece a cultura dos povos ciganos? Provavelmente muitas pessoas responderão que não. O desconhecimento é um dos fatores da marginalização dos povos ciganos, os quais lutam cotidianamente para ser tratados com dignidade. Ser maltratado na rua, lojas, bancos e serviços públicos é algo constante em seu cotidiano. A maioria das pessoas se mantém indiferente e até favorável a tais situações. A gozação com o uso bandana, lantejoulas douradas e outros elementos associados à cultura cigana fortalece estereótipos racistas.

 

6. “Trans-fake” - Homem vestido de mulher

Homens vestidos de mulher (e até mesmo de noiva) estão por todas as cidades do país no Carnaval. Mas o que está errado? Além de ser machista e desrespeitoso com as mulheres, uma vez que representa-se a imagem feminina sempre de maneira descompromissada e jocosa. Essa “moda” é preconceituosa contra as pessoas trans e apenas reforça os estereótipos de gênero e relações de poder. E se ao contrário de se vestir como essas pessoas, você começar a se colocar no lugar delas, reconhecer seus direitos e contribuir com suas lutas?

 

7. Respeito à população LGBTQI negra:

A população negra LGBTQI convive e luta contra várias formas de preconceito e segregação. Até hoje mulheres e homens negros em sua diversidade de gênero e orientação sexual convivem com o medo de sofrer o estupro dito “corretivo” muito recorrente na época de Carnaval. Sendo assim, respeitar os direitos da população negra LGBTQI vai ao encontro da importante percepção desse povo como cidadãos que tem suas contribuições na sociedade. Toda forma de desrespeito e depreciação vai contra princípios dos direitos regidos pela Constituição e pelo Estatuto da Igualdade Racial.

 

8. Criminalização e violência: não ao higienismo e sim ao direito à vida!

A cultura e estética de origem negra e periférica é alvo constante de olhares depreciativos e ações de controle por parte da sociedade e do Estado. No Carnaval é possível e urgente não se omitir diante de violências sofridas por jovens negros e pobres que tentam ter o direito de circular pela cidade. Nos casos de violência institucional e abordagens truculentas pelas forças policiais, você tem o poder de acionar a ouvidoria e relatar a situação indicando dia, hora e local do ocorrido (a identificação do agente da violência também é importante). Jovens negros vistos como indesejáveis em espaços historicamente ocupados por brancos são condenados ao estigma de suspeitos e perigosos, tornando-se alvo da criminalização e controle de seus corpos. Embora o Estatuto da Juventude preconize que todos os jovens são sujeitos de direitos, estamos ainda numa realidade de valorização exacerbada do patrimônio em detrimento da vida. O Brasil é um dos países com maior número de homicídios de jovens negros, o que se traduz como genocídio da juventude negra e pobre. A superação dessa terrível e inaceitável realidade é de sua responsabilidade também!