Caracterizada pelo acúmulo de gordura corporal, a obesidade pode acarretar graves problemas de saúde e levar até à morte. No Brasil de 2018, acometia quase 20% da população, de acordo com a Pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. O estudo apontou que, de 2006 a 2018, o número de obesos no país aumentou 67,8%. Esse é o dado oficial mais recente. 

Dois fatores, em especial, são associados ao aumento da obesidade, como aponta o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional Minas Gerais (Sbem-MG), Adauto Versiani: a disponibilidade de alimentos com elevada densidade energética, ou seja, ricos em gordura; e o estilo de vida sedentário.

“Hoje, a gente vive em um mundo em que o tempo é muito escasso e a alimentação é feita em pequenos intervalos, com comidas pré-fabricadas, ricas em gorduras, fast foods, e sem tempo para o lazer. Então, o estresse do dia a dia é descontado na comida, em vez de se fazer uma caminhada ou brincar ao ar livre com o filho, por exemplo”, pondera Versiani.

Ao encontro do que prega Versiani, pesquisa feita em parceria pela Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de São Paulo (USP) e Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) defende que aumentar impostos sobre alimentos não saudáveis pode conter a epidemia de obesidade no Brasil, a exemplo do que demonstram estudos internacionais e do que preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS).

CONTRIBUIÇÃO

A orientação dos autores do estudo, como a doutoranda em Enfermagem na UFMG Camila Passos, é pela adoção de uma Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre os alimentos ultraprocessados, como bebidas açucaradas, biscoitos, sorvetes e macarrões instantâneos. A pesquisa estima que aumentar em 20% o preço por quilo de alimentos ultraprocessados diminuiria, em média, 6,6% na prevalência de excesso de peso na população brasileira e 11,8% na de obesidade.

“A pesquisa nos permite falar que quanto mais baratos são os alimentos ultraprocessados, maior é a prevalência da obesidade. Assim como a relação inversa também é verdadeira”, revela uma das responsáveis pelo estudo, a enfermeira Camila Passos, professora da Unidade Federal de Viçosa (UFV), egressa do Programa de Pós-graduação da Escola de Enfermagem da UFMG.

O levantamento se deu, detalha Camila Passos, a partir de análise estatística da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2008-2009, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado confirmou evidências de estudos internacionais, com releitura voltada à realidade brasileira. 

Ainda segundo Camila Passos, esse aumento de preço tem efeito maior na população de menor renda, porque preço impacta mais onde as pessoas têm menos dinheiro. A alimentação atinge um percentual maior do salário das pessoas.

A pesquisadora revelou que o estudo deve ser atualizado a partir da mais recente Pesquisa de Orçamento Familiar (POF). Esse tipo de trabalho, no entanto, não costuma ser encaminhado ao Executivo ou ao Legislativo, a fim de que possa subsidiar políticas públicas de saúde. Ainda assim, Camila Passos afirma que a equipe que fez o levantamento está à disposição para falar sobre a pesquisa e seus resultados a autoridades interessadas.