Esqueça a Luzia com traços marcadamente africanos. O fóssil mais antigo encontrado nas Américas, na década de 1970, em Lagoa Santa, na Grande BH, tem outra identidade. A personagem mais conhecida da pré-história do Brasil não veio da África ou Austrália. Pesquisadores apontam que o grupo que iniciou a ocupação do continente, há cerca de 20 mil anos, é, na verdade, oriundo da Ásia.

A descoberta foi anunciada ontem por estudiosos das universidades de São Paulo (USP) e de Harvard (EUA) e do Instituto Max Planck (Alemanha), que analisaram o DNA dos fósseis encontrados na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O feito lança luz sobre a história dos povos ameríndios – os habitantes da América antes da chegada dos europeus –, que passa a ser recontada a partir das novas constata-ções científicas. 

A extração do material genético é inédita. Há duas décadas se tentava, sem sucesso, acessar o genoma do grupo que tem Luzia como personagem principal. O obstáculo era o ambiente tropical, de difícil preservação, em que os esqueletos foram encontrados. As áreas, conforme os estudiosos, acumulavam grande fragmentação dos ossos e alta possibilidade de contaminação.

Publicada ontem na revista científica internacional Cell, a pesquisa elimina a hipótese de o Povo de Luzia ter aparência semelhante a de indivíduos africanos ou aborígenes australianos. A imagem de uma Luzia negra, inclusive, foi eternizada pela famosa reconstrução facial feita pelo especialista britânico Richard Neave, na década de 1990. 

Essa primeira representação, mais artística do que científica, como afirmam especialistas, se baseou na teoria do antropólogo brasileiro Walter Neves, conhecido como “pai” de Luzia. Segundo ele, o grupo teria chegado ao continente antes dos ancestrais dos indígenas atuais, que vieram da Ásia.

A tese do professor aposentado da USP tinha como ponto central o fato de os crânios dos indivíduos encontrados em Minas Gerais serem anatomicamente muito diferentes das ossadas dos ancestrais dos índios. Porém, agora o DNA comprovou que todos os indivíduos que povoaram as Américas descendem de apenas uma população que chegou até o continente pelo estreito de Bering, que ligava a Sibéria, na Rússia, ao Alasca, nos Estados Unidos.

Confiabilidade

O bioarqueólogo André Strauss, um dos coordenadores do estudo, reforça que o mapeamento genético é mais confiável que a comparação dos esqueletos feita anteriormente. “

Se uma pessoa quer fazer um teste de paternidade, ela tira o DNA, que é infinitamente mais seguro, ainda que o crânio tenha informação genética. Agora, podemos ver que a população de Lagoa Santa é totalmente ameríndia. São da mesma linhagem que um povo Tupi, por exemplo”, diz o pesquisador, que também é professor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), da USP.

Próximos passos

A análise genética do Povo de Luzia é considerada a “abertura da caixa de Pandora” da arqueologia das Américas, na visão de André Strauss. Além das ossadas de Lagoa Santa, o Instituto Max Planck, da Alemanha, verificou sambaquis (depósitos de material orgânico) na costa brasileira. Foram analisados quatro sítios arqueológicos: um mineiro, dois paulistas e um catarinense.

“A ideia é mapearmos o DNA. Com isso, podemos descobrir como essas populações se relacionavam, se eram grupos de famílias, quais povos já tinham genes selecionados, e entenderemos melhor os fluxos migratórios”, explica o pesquisador.

Traços genérícos

Com a descoberta, Luzia ganha um novo rosto, afirma o bioarqueólogo André Strauss. A representação facial atual, com traços generalizados e indistintos, foi feita a partir de um esqueleto masculino pela professora Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, especialista em reconstrução forense. “Por trás dessa face estão diferentes histórias dos ameríndios”, frisa Strauss.

A fisionomia mais genérica está ligada à grande diversidade de povos ameríndios, que se estabeleceram por milênios. 

As feições dos indivíduos de Lagoa Santa são classificadas pelos pesquisadores como um “ameríndio ancestral”, das quais se derivaram outras variantes que se espalharam pelo continente, explicando a diferença entre os crânios. “Naquela época não tinha ninguém com a mesma ‘cara’ que as pessoas têm atualmente”, observa o bioarqueólogo.

Ancestralidade

Geneticista e professor da UFMG, Fabrício Santos ressalta que o fato de as ossadas terem aparências distintas se deve à ancestralidade dos povos. “As fisionomias mudam com o tempo, pouco a pouco, e essa alteração ocorre em todas as populações”.

O especialista diz, ainda, existir “certa continuidade entre os povos”. “O de Luzia era, provavelmente, muito mais parecido com as comunidades indígenas do Brasil de hoje do que com as demais. Os índios atuais representam muito mais essas populações, inclusive em termos culturais, sociais, na maneira de caçar e de produzir alimentos”, completa Santos.

Conexão

A análise do DNA das ossadas de Lagoa Santa também mostrou que o Povo de Luzia tem conexão com a cultura Clóvis, que reunia indivíduos produtores de pontas de lança feitas em pedra e que viveram na América do Norte há 12 mil anos. Com os dados genéticos foi possível constatar ter havido uma expansão populacional desse grupo.

No movimento migratório, essas pessoas se misturaram aos habitantes locais e deixaram descendentes, incluindo os indivíduos da Grande BH. No entanto, 2 mil anos após a chegada na cidade mineira, os herdeiros da cultura Clóvis deixaram de existir e foram substituídos por ancestrais dos indígenas que habitaram o Brasil colonial.

Reconstrução 

Comparar os ossos mais antigos encontrados nas Américas do Sul, Norte e Central. Esse foi o objetivo de outro estudo publicado ontem, dessa vez na revista científica Science.

A pesquisa, que tem o geneticista e professor da UFMG Fabrício Santos entre os autores, analisou materiais escavados pelo dinamarquês Peter Lund, considerado o “pai da arqueologia brasileira”.

A ideia, conforme o pesquisador, é reconstruir a história de populações antigas do continente. “Com isso, também iremos remontar a história da humanidade a partir do ponto de vista dos povos indígenas. Nós sabemos dos europeus, fenícios, romanos e gregos, mas essas narrativas sozinhas compõem a maior parte dos conteúdos dos livros de história”, afirma o cientista.

Fabrício Santos lembra ser possível, a partir da arqueologia, da genética e da linguística, apresentar novas evidências sobre os povos indígenas. “Quando os europeus chegaram aqui, não havia escrita. Estamos buscando dados, ferramentas, cerâmicas e ossadas para fazermos essa recomposição”, explica o especialista.

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