Apenas 15% dos brasileiros fizeram isolamento rigoroso, 60% permaneceram a maior parte do tempo em casa, saindo apenas para atividades essenciais, e mais da metade da população perdeu renda durante a pandemia. Esses são alguns resultados de uma pesquisa divulgada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Estadual de Campinhas (Unicamp), que verificou como a pandemia do novo coronavírus afetou a vida dos brasileiros. O estudo, que ouviu 44.062 pessoas entre 24 de abril e 8 de maio, também procurou identificar a relação da quarentena com fatores como estado de ânimo, prática de exercícios físicos, consumo de álcool, cigarro e alimentos. 

De acordo com os dados, 15% da população ficou isolada em casa. Entre os idosos, o percentual alcançou 31%. A maioria da população, (60%) ficou em casa, só saindo para atividades essenciais, como ida a supermercados e farmácias. Entre os que continuaram saindo e tomaram apenas certos cuidados, como não visitar idosos e manter distância de outras pessoas, o maior percentual (35%) foi registrado entre pessoas nas faixas de idade entre 30 e 49 anos.

Em relação aos rendimentos, 55% das pessoas relataram diminuição da renda familiar e 7% revelaram que ficaram sem rendimento. As perdas se agravaram na população mais pobre, ou seja, com renda per capita inferior a meio salário mínimo. Em relação à situação de trabalho, 3% perderam o emprego e 21% ficaram sem trabalhar.

Ainda conforme a pesquisa, 29% da população avaliou que a a saúde piorou durante a pandemia. Entre as pessoas com diagnóstico de depressão, 47% informaram que tiveram o quadro agravado. O percentual de pessoas com risco de agravamento de Covid-19 por ter uma doença crônica como diabetes, hipertensão, asma, doença do pulmão ou do coração é de 34%, alcançando 59% entre os idosos. 

Para quem tem algum problema crônico de coluna, 50% relataram aumento da dor. No caso daqueles que não tinham problema de coluna antes da pandemia, mais de 40% passaram a sentir dores devido às mudanças nas atividades cotidianas.

22% relatam que procuraram atendimento com médico, dentista ou outro profissional de saúde. Desses, 86% conseguiram atendimento. As maiores dificuldades relacionadas aos cuidados à saúde foram marcação de consulta (19%), cancelamento de consulta (15%) e realização de exames (12%).

Grande parte do grupo entrevistado apresentou problemas no estado de ânimo: 40% sentiram-se tristes ou deprimidos e 54% estiveram ansiosos ou nervosos com frequência. Entre os adultos jovens, com idade entre 18 e 29 anos, os percentuais alcançaram 54% e 70%.

As mulheres foram as mais afetadas, segundo o estudo, chegando ao percentual de 50% que se sentem tristes e deprimidas frequentemente, enquanto 30% dos homens relataram o problema. 

Quanto à qualidade do sono, 29% passaram a ter problemas para dormir e 16%, que já tinham algum problema, relataram piora durante a pandemia.

Hábito de fumar

Das pessoas entrevistadas, 12% são fumantes. Entre elas, quase 23% aumentaram em cerca de 10 cigarros o consumo diário e 5% passaram a fumar mais de 20 cigarros por dia. Entre as mulheres, o percentual daquelas que passaram a fumar mais 10 cigarros por dia (29%) foi maior que entre os homens (17%). Entre os indivíduos de menor escolaridade, 25% aumentaram cerca de 10 cigarros por dia e, 10%, mais de 20 cigarros por dia.

Atividade física

A atividade física foi muito afetada pela pandemia: 62% dos entrevistados não estão se exercitando. Entre as pessoas que faziam atividade física três ou mais dias por semana, 46% deixaram de fazê-la. Entre as que se exercitavam cinco dias ou mais por semana, 33% abandonaram o hábito. Antes da pandemia, 30% faziam atividade física por mais de 150 minutos por semana (tempo recomendado pela OMS). Durante a pandemia, o percentual passou a ser de apenas 13%.

Sedentarismo

O tempo médio diário diante da televisão foi de três horas entre os entrevistados, crescimento de uma hora e 20 minutos em relação a antes da epidemia. Além disso, 22,5% relataram usar tablet/computador por nove horas ou mais. O tempo médio de uso dessas tecnologias foi superior a cinco horas, representando um aumento de 1 hora e trinta minutos em relação ao tempo de uso antes da pandemia. Entre os jovens de 18 a 29 anos, o tempo médio de uso de computador ou tablet foi de sete horas e 15 minutos, quase três horas a mais do que no período anterior à pandemia.

Alimentação

O consumo de alimentos saudáveis diminuiu durante a pandemia. A ingestão de frutas, legumes e verduras em cinco dias ou mais por semana foi relatada por apenas 13% entre os adultos jovens (18-29 anos). Na população de baixa renda, esse índice foi de 16%.

Por outro lado, o consumo de alimentos não saudáveis em dois dias ou mais por semana aumentou 5% (embutidos e hambúrgueres), 4% (congelados) e 6% (chocolates e doces). Quase metade das mulheres está consumindo chocolates e doces em dois dias ou mais por semana durante a pandemia, o que representa aumento de 7% em relação ao consumo anterior à pandemia. Entre os adultos jovens (18-29 anos), 63% estão consumindo chocolates e doces em dois dias ou mais por semana.

Consumo de bebida alcoólica

Dezoito por cento relataram aumento no uso de bebidas alcoólicas durante a pandemia, índice similar entre homens e mulheres. O maior aumento (26%) no uso de bebidas alcoólicas ocorreu entre as pessoas de 30 a 39 anos de idade, e o menor (11%), entre os idosos. O aumento do consumo de álcool também está associado aos sentimentos de tristeza e depressão e foi relatado por 24% das pessoas com esse estado de ânimo.

O trabalho foi coordenado pela professora Deborah Carvalho Malta, da Escola de Enfermagem da UFMG, Celia Landmann, da Fiocruz, e Marilisa Barros, da Unicamp.

A amostra foi calibrada por meio dos dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD, 2019), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para obter a mesma distribuição por unidade da federação, sexo, faixa etária, raça, cor e grau de escolaridade da população.  

*Com UFMG