Imagine atravessar por uma passarela, partindo da rua Aquiles Lobo, no bairro Floresta, região Leste, cruzar a ferrovia e a avenida dos Andradas e chegar ao interior do Parque Municipal, no Centro de BH. Lá, contemplar as águas cristalinas do córrego Acaba Mundo correndo ao ar livre, pelo leito original. Isso no horário que preferir, com o sol a pino ou em plena madrugada.

Assim será o parque Américo Renné Gianetti do futuro. Pelo menos esse é o esboço apresentado no plano diretor da principal área verde da capital. O estudo, obtido com exclusividade pelo Hoje em Dia, levou 15 meses para ficar pronto e já recebeu aval do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município. Falta apenas a apreciação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha).

Uma série de ações de curto, médio e longo prazos foi traçada para os próximos 35 anos. As diretrizes, divididas em três fases (a partir de agora, de 2020 e de 2050), contam com normas e sugestões ou recomendações. Todas, no entanto, deverão ser revistas a cada quatro anos, durante as conferências públicas municipais.

Em resumo, o objetivo principal do documento é resgatar o projeto pioneiro, idealizado pelo paisagista Paul Villon em 1897, antes mesmo da inauguração da nova capital. Para isso, mais de 500 mil metros quadrados de verde, que cederam lugar ao concreto no decorrer dos anos, poderão ganhar adaptações. Vagas de estacionamento dariam lugar a vegetação e até as edificações do entorno receberiam “telhados verdes”, feitos com grama e algumas espécies de plantas. As mudanças atingiriam a área hospitalar, a avenida dos Andradas, a ferrovia e o bairro Floresta.

Além da passarela na rua Aquiles Lobo, outro elevado para pedestres é sugerido para a rua Itambé, ligando o Floresta com a Região Hospitalar.

Canalizado e com altos índices de poluição, o córrego Acaba Mundo seria revitalizado, e o curso d’água cortaria toda a extensão do parque. Segurança e iluminação ganhariam reforço, possibilitando o funcionamento 24 horas por dia e a retirada das grades.

O plano diretor sugere a criação de um viveiro de mudas, de 2.700 metros quadrados, no bosque da Amizade, próximo ao espaço multiuso. Conforme o documento, a nova atração seria considerada o “coração do parque”. Atividades científicas e botânicas, estufa, jardinagem, orquidário e bromeliário, área de plantas medicinais, aromáticas, exóticas poderiam ser encontrados.

Rico em detalhes, projeto de escritório espanhol recebe elogios

Nada menos do que sete cadernos, com no mínimo cem páginas cada, compõem o Plano Diretor do Parque Municipal. O trabalho, repleto de detalhes, foi elaborado pela empresa espanhola de arquitetura Terysos, que há dois anos mantém escritório no Brasil.

Segundo o urbanista e diretor da empresa, José Antonio Hoyuela Jayo, o material cria um plano de manejo para fauna, flora e paisagem, além de incentivar a recuperação de uma das principais áreas verdes de BH. “Buscamos reintegrar o parque à cidade. A elaboração demandou muitas pesquisas”, disse.

Considerado um dos especialistas mais respeitados em Minas quando o assunto é plano diretor, o membro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) Sergio Myssior analisou parte do material e disse que as estratégias estão bem definidas.

“É um processo de resgate da história, de valorização do patrimônio, de ampliação dos limites físicos, de valorização ecológica e de reafirmação do papel do parque na malha urbana, na cultura e no lazer da sociedade. Pensando no longo prazo, considero viáveis as intervenções, mesmo aquelas que possam parecer utópicas”.

A Fundação de Parques Municipais (FPM) não disponibilizou ninguém para falar sobre o assunto. Em nota, a assessoria de imprensa do órgão informou que o plano diretor está sob análise do Iepha. A fundação aguarda a consolidação dos dados para definir estudos de viabilidade, cronogramas e recursos necessários.