Desde o ano passado, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e a Polícia Civil investigam uma denúncia de abuso sexual contra o coach e guru de meditação e sexo tântrico Deva Nishok, de 61 anos. Batizado sob o nome de Tadeu Horta, o guru é fundador e coordenador geral de uma comunidade terapêutica em Itapeva, no Sul de Minas, a Sadhana Comunna Metamorfose. Alguns dos tratamentos e cursos de formação na comunidade chegam a custar R$ 8.900,00. 

A denúncia chegou ao conhecimento do MPMG por meio de um e-mail institucional. Nele, a vítima, uma ex-voluntária do centro terapêutico, relata que durante uma sessão de tratamento em que estavam presentes somente ela e Deva, ele teria utilizado uma técnica no órgão sexual da vítima que a fez se sentir desconfortável e envolvia, inclusive, sexo oral. Na denúncia, ela chegou a dizer que pediu para o homem parar e que ele chegou a ficar sexualmente excitado, mas que a resposta dele foi que o procedimento fazia parte da técnica. Após a sessão, ela saiu correndo do local. 

O educador ambiental Paulo Kroeff, de 48 anos, que desempenhou a função de gerente na Communa por pouco mais de um ano, conversou com a vítima cerca de duas horas depois de ela deixar a sessão.

"Ela fazia parte de um grupo de mais ou menos 15 voluntários. Quando a encontrei, estava muito frustrada e transtornada, porque ela passou por experiências na vida dela de relações abusivas envolvendo homens e tinha problemas relacionados a sexualidade por causa disso. Ela buscou o centro justamente para se curar destas sensações. Isso a deixou confusa e eu senti que ela estava me perguntando sobre os procedimentos, porque queria entender o que tinha acontecido ali dentro", lembra.

Ele ainda relata que muita coisa dita por ela, como o fato de o homem se despir ou não usar luvar para fazer a massagem, não fazem parte do procedimento e vão contra o manual da comunidade. Após isso, segundo o ex-funcionário, o grupo de voluntários que a vítima integrava se revoltou e foi embora do lugar. 

Outra coisa que chama a atenção de Paulo é o fato de Deva dizer que não fazia mais atendimentos, dedicando-se, exclusivamente, aos cursos. "Mas, ele utilizava a sala de atendimento algumas vezes de forma não registrada, o que eu achava estranho", diz. 

Esta e outras situações, como o relato de algumas voluntárias que recebiam mensagens no celular em que o guru as convidava para um atendimento exclusivo, fizeram Paulo buscar se desligar da Communa. 

As investigações

O MPMG apura o caso desde o ano passado, e o inquérito na Polícia Civil para as investigações foi aberto há mais de um ano, no dia 10 de janeiro de 2018. Segundo o promotor de Justiça de Camanducaia, Emmanuel Levenhagen, a apuração esbarra em algumas dificuldades que contribuem para que o processo demore a ser concluído. 

"Tanto a vítima como todas as testemunhas envolvidas não são de Minas. Elas são de outros estados e algumas delas estão até fora do país. Portanto, estas pessoas não têm obrigação de ir até Camanducaia para serem ouvidas. O que nós fazemos é encaminhar cartas precatórias para todas elas, para que os promotores responsáveis dos municípios onde cada uma delas reside possam fazer as oitivas, colher depoimentos e depois nos remeter o que foi mencionado. E isso é algo que demora", explica. 

Outra dificuldade encontrada pelo órgão é a resistência das testemunhas em falar sobre o guru. "Ele é um líder espiritual e, de fato, há muita resistência das pessoas em depôr contra ele, prestar depoimento, até por receio de sofrerem alguma represália. Há uma espécie de senso de comunidade entre eles", explica, ainda, o promotor. 

Já a Polícia Civil informou que as investigações continuam e que mais detalhes do inquérito não serão dilvulgados por se tratar da investigação de um crime sexual que segue sob sigilo. 

O Método Deva Nishok

O Centro Metamorfose, denominado como uma "escola da nova sexualidade", tem procedimentos e cursos pautados pelos ensinamentos de Osho, polêmico guru indiano que inspirou a série documental "Wild Wild Country", disponível na Netflix. 

Deva Nishok, uma espécie de líder espiritual da comunidade terapêutica em Itapeva, é ainda o criador de um método que leva o seu próprio nome. Na página da Sadhana Communa, o Método Deva Nishok, desenvolvido à luz do Tantra, é descrito como "um processo altamente resolutivo para problemas ligados à sexualidade", e entre os problemas propostos para a "cura" estão os traumas emocionais e psicológicos descorrentes de abusos sexuais.

A defesa

Procurado pela reportagem, Deva Nishok respondeu por meio da Sadhana Communa Metamorfose, em uma nota produzida por ele junto a seu advogado. No texto, ele diz que foi pego de surpresa "sobre uma suposta acusação, sem a mínima fundamentação", e cita o jornal Folha de São Paulo, que noticiou o caso nesta quarta-feira (27). 

"Vamos levantar maiores informações e em breve daremos maiores explicações, acerca deste covarde ataque, desferido por motivos mesquinhos ao Sr. Tadeu H., que há 30 anos, se dedica ao bem estar de milhares de pessoas no Brasil e no exterior, na incansável luta por disseminar a benéfica filosofia do amor". 

A nota também diz que Deva não realiza mais atendimentos e rechaça o título de guru, embora ex-funcionários e ex-voluntários o vejam como um líder espiritual. "O Sr. Tadeu, desenvolvedor do Método Deva Nishok, é o maior estudioso do Tantra do Brasil. Não confundir com Mestre religioso ou Guru, por favor. Há anos ele não atende como terapeuta, se limitando apenas aos seus livros em fase de conclusão e ao papel de facilitador nos workshops livres, que ocorrem tanto na Comunna Metamorfose, como em outros lugares do Brasil, onde frequentemente é convidado".

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