Um suposto esquema de propina envolvendo 17 agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Triângulo Mineiro pode ter lesado motoristas que passam em rodovias da região por pelo menos uma década. 

Os policiais são investigados por cobrarem dinheiro de condutores com irregularidades nos veículos e apreender automóveis e caminhões sem necessidade. Dezenove pessoas, dentre elas 15 agentes, foram presas ontem na Operação Domiciano, deflagrada em Uberlândia, Araguari e Monte Alegre de Minas.

Os crimes teriam como palco as BRs 050, 153 e 365. As investigações foram embasadas em pelo menos 20 denúncias recebidas desde o início de 2016 pela PRF. Há sete meses, a Polícia Federal (PF) e a Corregedoria-Geral da União (CGU) integraram a força-tarefa que apurou as queixas.

“Há relatos de pessoas que são vítimas há dez anos do mesmo policial. As denúncias não são feitas por causa do medo”, enfatizou o chefe da Delegacia da PF em Uberlândia, Carlos Henrique D’Ângelo.

Serviço gratuito em rodovias concedidas, uma empresa de guincho particular era acionada pelos próprios policiais investigados para remover veículos estragados na via; o motorista arcava com o custo

Esquema

Tanto policiais rodoviários quanto empresários seriam beneficiados com o suposto esquema, explica o delegado. Dentre os detidos, quatro são ligados a pátios de veículos e empresas de guincho.

D’Ângelo afirma que os policiais rodoviários abordavam todo tipo de veículo, mas preferencialmente os de grande porte. Caminhões, carretas e bitrens, por exemplo, eram rebocados para um pátio em Monte Alegre de Minas mesmo não apresentando problemas na documentação ou com o condutor. 

As apurações indicaram um acordo entre o responsável pelo local e os policiais. Por veículo levado para lá, segundo o delegado, os agentes receberiam até R$ 200. “O pátio acolhia dois veículos por mês, em média, mas de repente saltou para 200”, disse.

Sem registro

Condutores flagrados trafegando embriagados ou sem habilitação, conforme D’Ângelo, eram liberados mediante o pagamento de propina. A ocorrência não era registrada. Em uma das situações, o delegado conta que a propina começou a ser negociada a R$ 3 mil. O motorista, porém, teria pago R$ 300 para seguir viagem. 

Também são investigados casos em que os policiais rodoviários teriam recebido para permitir o tráfego de maquinário agrícola nas rodovias, o que é proibido, e priorizar atendimento a comerciantes em diversas ocorrências, como em acidentes.

O delegado afirma que as investigações flagraram um mesmo policial recebendo propina cerca de 20 vezes. “As provas são robustas”, apontou.<EM><QA0>

Penas

As apurações dão conta de que os 17 policiais agiriam isoladamente, mas é investigada se eles fariam parte de uma organização criminosa. 

Os agentes públicos podem responder por vários crimes, entre eles corrupção ativa e passiva e peculato, com penas de até 15 anos de prisão.

Em nota, a PRF afirmou não admitir nenhum tipo de desvio de conduta na corporação. Comprovadas as denúncias, os policias podem ser expulsos.

Operação

Os 15 policiais rodoviários federais e os quatro empresários que estariam ligados ao esquema de propina foram detidos em Uberlândia, Araguari e Monte Alegre de Minas. Os suspeitos foram transferidos para a Penitenciária Nelson Hungria, na Grande BH. A operação também cumpriu 33 mandados de busca e apreensão em Itumbiara (Goiás), Centralina, Canápolis e Delfinópolis, no interior de Minas.

Por determinação judicial, outros dois policiais foram afastados das funções. A Justiça não autorizou a prisão deles porque entendeu não haver provas suficientes contra os agentes.

Funcionários da concessionária que administra a BR-153 são investigados por participação no suposto esquema. Em nota, a empresa informou que três colaboradores prestaram depoimento à PF como testemunhas.