Todo mundo já ouviu falar em Praça do Papa, da Liberdade, Igrejinha da Pampulha e Automóvel Clube. Mas nem todos conhecem, de fato, a história por trás desses lugares e os motivos que os fazem importantes para narrar a capital mineira. Faltam nos prédios históricos, pontos turísticos e monumentos de Belo Horizonte placas interpretativas que ajudem o visitante a desvendar os locais.

A Fundação Municipal de Cultura (FMC) desenvolve um projeto que prevê, para o ano que vem, a instalação de sinalização apropriada nos principais conjuntos urbanos protegidos da capital.

Enquanto isso, visitantes e até os próprios moradores se perdem em meio à desinformação. “Todo mundo vem aqui porque sabe que é um ponto turístico, mas poucos conhecem a história e até o motivo do nome”, comenta a estudante belo-horizontina Raquel Ianine, de 23 anos, sobre a Praça do Papa.
O local, um dos mais emblemáticos da cidade, foi rebatizado em 1980, após a visita do Papa João Paulo II.

Perto dali, no Mirante do Mangabeiras, no bairro de mesmo nome, na zona Sul, uma visão ampla da capital dos mineiros encanta os turistas. Falta, porém, uma indicação precisa dos principais pontos turísticos da cidade vistos dali ou algum tipo de informação que oriente melhor o visitante.

GUIA PARTICULAR

Não fosse a ajuda de um taxista local, a psicóloga gaúcha Ana Cristina Zanatta, de 48 anos, teria ficado literalmente perdida durante a visita que fez a BH, na última semana. “Senti falta de placas com um breve histórico e informações dos locais onde estive. Quando a gente viaja para o exterior, fica encantado com tudo, pois em qualquer lugar que se vá, o que não falta é história e informação”, conta. Dar sentido à passagem pela Rua do Amendoim – nos arredores da Praça do Papa – só foi possível à Ana Cristina graças ao “guia particular” Sidney Barros, o taxista. O local é sinalizado com uma placa que sugere haver ali uma curiosidade, mas não explica do que se trata.

O folclore local fala na existência de depósitos subterrâneos de minérios imantados, que fariam os carros, mesmo desligados, subir a ladeira. A verdade, porém, é outra. A rua, que parece uma subida, é, na verdade, uma descida.

INTERESSE

Para o arquiteto e urbanista Flávio Carsalade, professor na Escola de Arquitetura da UFMG, placas interpretativas são fundamentais não só para orientar o turista, mas para despertar o interesse dos próprios moradores. “A data é importante e também uma breve descrição do motivo daquilo fazer parte da história. Cidades são feitas de pessoas, mas, sobretudo, de lugares”, diz.

Mantida pela Vale desde 1991, a Praça da Liberdade, no bairro Funcionários, é um dos poucos locais da cidade que se apresentam ao visitante. Há placas, em todo o seu entorno, que traçam uma espécie de linha do tempo do cartão-postal.

Falhas começam a ser corrigidas pela região Central

A primeira etapa do projeto de sinalização dos pontos turísticos e culturais de Belo Horizonte está prevista para março. Inicialmente, serão identificados os conjuntos urbanos protegidos da Praça da Estação, da Rua da Bahia e da Praça da Liberdade, que formam um trajeto histórico da ocupação da capital mineira.

De acordo com a Fundação Municipal de Cultura, o Projeto de Sinalização Interpretativa do Patrimônio Cultural de BH deverá se estender para todos os demais conjuntos urbanos tombados pela cidade. O objetivo é contemplar a área compreendida pelo perímetro da avenida do Contorno e estimular moradores e visitantes a valorizar o patrimônio cultural da cidade.

Ao todo, serão 102 placas indicativas e interpretativas, distribuídas pelos primeiros pontos a serem identificados, 83 delas trarão algum tipo de informação sobre a história do local.

PARA O MORADOR

Presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, o arquiteto e urbanista Washington Fajardo reforça que a prioridade desse tipo de identificação não é informar somente o turista, mas os moradores.

Além de pontos turísticos, espaços e construções historicamente importantes também devem ser considerados.

“A preocupação não deve ser, necessariamente, com locais turísticos, tampouco voltada somente para turistas. As placas são uma narrativa da cidade”, diz Fajardo. No Rio de Janeiro, existem cerca de 230 placas interpretativas distribuídas por pontos turísticos, construções históricas e monumentos. O projeto começou a ser implantado em 2011.

ALÉM DISSO

Cidades brasileiras onde há placas interpretativas em pontos turísticos e monumentos históricos:

São Paulo: A capital paulista tem mais de 50 placas interpretativas, instaladas em frente aos atrativos turísticos. Cada uma traz um texto, em três idiomas, sobre a história do local e um QR Code (código lido por smartphones) com link para a página online onde há mais informações sobre o lugar. O serviço está disponível em importantes pontos como a Catedral da Sé e a Estação da Luz. Além disso, existem cerca de 20 totens espalhados pela cidade com mapas que mostram a localização dos pontos de interesse turístico próximos àquela área.

Rio de Janeiro: Já existe na cidade, desde a década de 90, o projeto Circuito do Patrimônio Cultural Carioca. A prefeitura seleciona locais de destaque, subdivide por temas, como arquitetura, cinemas e botequins, e identifica com placas informativas que contam mais sobre a importância histórica para a cidade. As placas, que seguem um modelo padronizado (redondas e pintadas de azul), contêm textos curtos, de até 140 caracteres. Até o fim do ano, o município também irá implantar 500 painéis de sinalização para os pedestres. O projeto Wayfinding (Encontro Seu Caminho, na tradução para o português) é pioneiro na América Latina, mas já vem sendo utilizado em cidades como Londres e Nova Iorque. Nos totens, além de um mapa do ponto em que a pessoa está e arredores, constam informações sobre atrativos turísticos, pontos de interesse, comércio e serviços mais próximos para que o turista possa se orientar por conta própria.

Brasília: Moradores e visitantes da capital federal também contam com o auxílio de placas, afixadas em mais de 1.200 locais, para se orientar na cidade. O projeto, que começou a ser implantado no início do ano passado, contempla os lugares mais relevantes para a prática do turismo. As placas interpretativas contam a história e informam dados técnicos dos monumentos em textos escritos em inglês, português e espanhol. Existe também o Beekme, aplicativo de celular que apresenta um roteiro interativo da cidade ao visitante. A ferramenta é gratuita e compatível com os sitemas IOS e Android.