A servidora pública Gláucia Teixeira considerou surreal a irresponsabilidade do motorista que estacionou um caminhão em frente à garagem do prédio onde ela mora, no bairro Padre Eustáquio, região Noroeste de Belo Horizonte, a impedindo de sair com o próprio carro. “Pela rua, fui a pé na tentativa de descobrir quem havia parado quase que uma carreta em frente ao portão. Havia o número de um telefone na parte externa da boleia e liguei. O condutor ainda demorou cinco minutos para chegar ao local. Ciiiinco minutos! É muito tempo. Imagina se eu estivesse numa emergência?”.

O veículo de carga não foi rebocado pela BHTrans, pois o motorista chegou antes de os agentes registrarem a ocorrência. Do contrário, iria engordar uma estatística que mostra o quanto o trânsito da capital é prejudicado por um conjunto de infrações. Por mês, mais de 500 automóveis são removidos por estarem em desacordo com a permissão para estacionamento em via pública.

De janeiro a junho deste ano, 3.039 veículos foram recolhidos pela autarquia por motivos como o que irritou a servidora pública, mas também por ocuparem áreas reservadas a carga e descarga, aos idosos e em locais onde é proibido parar. Porém, para especialistas, o número do primeiro semestre é subestimado.

O subinspetor Douglas Antônio de Oliveira, da Inspetoria de Trânsito da Guarda Municipal da capital, acredita numa estatística bem maior: “A própria responsável por administrar o trânsito na cidade (BHTrans) estima que a realidade é bem acima”. Procurada, porém, a BHTrans não comenta a quantidade de veículos rebocados. 

Por sua vez, a Guarda Municipal não tem agentes suficientes para fiscalizar toda a cidade. “O efetivo na Inspetoria de Trânsito da corporação é de 222 pessoas. O serviço operacional conta com 155”, informou o subinspetor. Há uma expectativa de o efetivo aumentar com o novo concurso da corporação, que abriu 500 vagas – a prova será realizada em 18 de agosto.

Diante do desrespeito de muitos condutores, há quem tente resolver o problema por conta própria. No Padre Eustáquio, por exemplo, uma família pintou na calçada da rua Vereador Geraldo Pereira a seguinte frase: “Proibido estacionar; sujeito a reboque”.

Dona Leni Pereira, moradora, diz que o aviso surtiu efeito. “Muitos carros paravam na porta da residência. A gente não conseguia sair nem entrar. Após meu marido fazer isso, a dor de cabeça reduziu”.

Na rua Marambaia, no Caiçara, também na região Noroeste de Belo Horizonte, um morador foi mais radical. Sobre o portão, ele improvisou o seguinte aviso: “Garagem, sabia? Pois é!!! Sujeição: pneus no chão”.

PÁTIO CARROS
Quem tem o carro levado para um dos pátios credenciados paga R$ 43,21 pelo valor da estadia, R$ 242,48 pelo reboque e R$ 5,51 pelo serviço bancário

Penalidades

O motorista que tiver um veículo de pequeno porte removido pode preparar o bolso. Pagará R$ 291,20 se retirar o carro no primeiro dia: R$ 43,21 pelo valor da estadia no pátio conveniado, R$ 242,48 pelo reboque e R$ 5,51 pelo serviço bancário. Na hipótese de o carro ficar um mês no pátio, o total sairá a R$ 1.544,29.

Além do desembolso, será penalizado entre 3 e 5 pontos no prontuário da carteira nacional de habilitação, dependendo do tipo da infração. 

Multas

Quase 50 mil multas foram aplicadas pela Guarda Municipal de Belo Horizonte neste ano por infrações às diversas regras envolvendo o estacionamento em vias públicas. Só de janeiro a maio, segundo a corporação, foram 49.072 autuações nas nove regionais da cidade.[/TEXTO]

A principal desobediência se deve ao rotativo (Faixa Azul), com mais de 37 mil autuações. Este tipo de infração, porém, não é justificativa para a remoção do veículo.

“De forma geral, a Prefeitura de Belo Horizonte divulgou bem o rotativo eletrônico. Ficou até mais cômodo para os motoristas o uso da tecnologia (aplicativo), pois, agora, não é necessário procurar uma banca de revista para adquirir talão”, avaliou o subinspetor da corporação Douglas Antônio de Oliveira.

De acordo com ele, a região Centro-Sul é a área em que mais autuações são registradas. A justificativa é o conjunto de características da área, com maior número de vagas. “Muita gente não respeita o objetivo do sistema, que é o rodízio”, acrescentou.

Já os outros seis tipos de infrações envolvendo estacionamento em via pública são passíveis de remoção do veículo. Dessas, o desrespeito às áreas reservadas a carga e descarga aparece em primeiro lugar.

O estacionamento em “guia de calçada rebaixada” somou 262 registros. Esse é o tipo de infração que, embora em menor quantidade, causa a maior dor de cabeça. Justamente por ser o que ocorre em porta de garagem.

“É o tipo que dá o transtorno maior. Se comparado às demais, é um número baixo. Mas tem uma velocidade de remoção maior até pela urgência (de quem precisa sair ou entrar na garagem). Os condutores têm de pensar na coletividade. Se todos respeitarem as regras de trânsito, contribuirão para maior segurança e melhor fluidez do tráfego”, recomendou o subinspetor.

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