A possibilidade do novo coronavírus ser transmitido pelo ar em locais públicos pode tornar o combate à doença ainda mais "caótico". É o que disse nesta quarta-feira (8) o infectologista Estevão Urbano, integrante do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte. 

"Isso significa que as pessoas estão ainda mais em risco. Se for comprovada essa hipótese, complicaria ainda mais a vida de todos nós para evitar o contágio da doença", destacou o médico. 

Nessa terça-feira (7), a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que existem evidências a respeito de transmissão do coronavírus pelo ar. Segundo Benedetta Allegranzi, diretora de prevenção e controle de infecções da OMS, a "possibilidade de transmissão pelo ar em locais públicos - principalmente em condições muito específicas, locais cheios, fechados, mal ventilados que foram descritos - não pode ser descartada".

No entanto, a organização explicou que ainda são necessários estudos mais aprofundados para confirmar a suspeita de transmissão do vírus pelo ar. 

Cuidados redobrados

De acordo com Estevão Urbano, se a possibilidade for comprovada, o contágio do coronavírus pode ser parecido, em alguns momentos, com a transmissão da tuberculose, que pode ser propagada partir da inalação de gotículas expelidas pela tosse, fala ou espirro do doente. "A partícula (do novo coronavírus) poderia ser transmitida por longas distâncias", acrescentou o infectologista. 

As microgotículas das pessoas infectadas podem permanecer suspensas no ar por várias horas no chamado "aerosol", sendo espalhadas por dezenas de metros. Um risco que, segundo os especialistas, é ainda maior em locais fechados e mal ventilados. Neste cenário de incertezas, Estevão Urbano recomendou uma atenção maior em relação aos protocolos de segurança.  "O distanciamento, que hoje é em torno de 1,5 a 2 metros, terá que aumentar, caso comprove a hipótese de transmissão pelo ar. As máscaras de proteção também terão que ser com potências maiores. Temos que ficar atentos", explicou. 

A possibilidade reconhecida pela OMS é acompanhada com atenção pelo Comitê de Enfrentamento à Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte. Por enquanto, as medidas de flexibilização do comércio permanecem as mesmas dos últimos dias da capital. 

coronavírus

Alerta

A OMS se pronunciou sobre o assunto depois de um alerta de 239 cientistas de 32 países. Na segunda-feira (6), em uma carta aberta à Organização Mundial da Saúde, o grupo pediu à entidade que reconheça oficialmente o “potencial significativo” de propagação pelo ar do novo coronavírus. De acordo com o texto, a velocidades padrões do ar em ambientes fechados, uma gotícula contaminada pelo vírus é capaz de viajar “dezenas de metros”. Distância que, segundo o grupo, é muito maior em ambientes fechados e sem ventilação.

“Existe um potencial significativo de exposição por inalação a vírus em gotículas respiratórias microscópicas (microgotas) a curtas e médias distâncias (até vários metros, em ambientes fechados e sem ventilação), e defendemos a utilização de medidas preventivas para mitigar esta via aérea de transmissão”, diz o texto.