Quando mal gerenciados, canteiros de obra transformam-se em ambiente ideal para o acúmulo de água e casa do mosquito Aedes aegypti. Situação comum em Belo Horizonte, mas que poderá ser reprimida caso um projeto de lei aprovado na Câmara seja sancionado pelo prefeito Macio Lacerda. O texto ameaça caçar o alvará do empreendedor negligente.

Pelo projeto nº 781/13, o dono do imóvel em construção teria de assinar um termo de compromisso de controle para legalizar a obra. Porém, o empreendimento seria imediatamente interditado no caso de constatação da presença de larvas pela fiscalização.

“Existe uma dificuldade enorme dos agentes de saúde de vistoriar esses locais e, quando fazem, apenas notificam. Com a lei, quem não cumprir só terá o alvará de construção renovado depois de uma nova vistoria”, explica o vereador Juliano Lopes (PTC), autor da matéria.

Segundo ele, 20% das obras da capital tinham focos do Aedes aegypti até outubro último. “Esperamos que as construtoras tenham a consciência da epidemia de dengue e ajudem a combater o vetor”, reforçou o parlamentar, otimista que a medida seja sancionada pelo prefeito.

Para a dentista Gabrielly Almeida Sales, moradora do bairro Castelo, na região da Pampulha, a cidade precisa de novas ferramentas no combate à dengue e ao zika vírus. Na rua onde reside, há um grande foco do mosquito em uma obra abandonada. “Já liguei para prefeitura, falam que vão mandar alguém e nada”.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) informou que o local é vistoriado a cada duas semanas. Ainda de acordo com o texto, alguns imóveis na região, da mesma construtora, serão alvo de entrada forçada nos próximos dias.

Campanhas

O Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-MG) informou que não comentaria o projeto antes de sancionado, mas que “vem empreendendo esforços no combate à dengue através de suas entidades representativas, visto que os canteiros de obras podem apresentar um risco potencial”.

No entanto, a situação está fora de controle em obras paralisadas. Na rua Maria Helbuth Surette, no Buritis, o esqueleto de um prédio angustia a vizinhança. “Lá tem vários focos do mosquito, e muitas pessoas na rua já tiveram dengue. A gente tem criança em casa, ficamos com medo”, diz a engenheira Maria Luiza Figueiredo.

A fisioterapeuta Iara Delgado, que também mora na região, diz que a prefeitura já foi acionada diversas vezes. A SMSA informou que agentes de zoonoses realizaram diversas tentativas de localizar os responsáveis pela obra para acessar o local, mas em vão. A solução será, também, entrar no local de maneira forçada.

Pilhas de pneus em bota-fora da prefeitura

No bairro Castelo, a vizinhança está assustada com os casos de dengue registrados na região. Para fazer frente, mães do bairro resolveram se unir. Elas criaram grupos em redes sociais que congregam mais de 700 mulheres. Lá, compartilham locais que identificam como focos do Aedes aegypti, informações e a indignação com a situação.

A advogada Cristina Mazzali é uma das mães do grupo. Ela já teve dengue e sua maior preocupação agora são os focos que acredita ter numa Unidade de Recolhimento de Pequenos Volumes da Prefeitura (URPV), na rua Castelo Veiros. “Já acionamos a prefeitura e não tomam providência. Ali é um lixão, uma pouca vergonha”.

Em nota, a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) informou que faz a limpeza periódica do local. Por dia, são recolhidas cerca de 30 toneladas de poda, pneus e outros resíduos na URPV Castelo, dentro e fora da unidade.

Diretora da OMS afirma que situação vai piorar ainda mais

Em visita ao epicentro dos casos de zika e microcefalia, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, afirmou que ainda não está clara a relação entre o vírus e o desenvolvimento de má-formação cerebral em fetos.

Por isso, ela considera prioritário o investimento em estudos sobre a associação da infecção com a anomalia neurológica. “As coisas vão piorar antes de melhorar”, afirmou.

Margareth Chan conheceu as ações do governo de Pernambuco e o trabalho de um dos centros de referência no atendimento a crianças com microcefalia.

Confirmação

Enquanto isso, na Colômbia, autoridades locais anunciaram o primeiro caso de microcefalia ligado ao zika vírus no país.

A gestante, de 18 anos, optou pela interrupção da gravidez após comprovar a má-formação fetal por meio de exames clínicos.

População é apontada como principal responsável por disseminação

A população foi considerada a principal responsável pela proliferação do mosquito Aedes aegypti. Foi o que disseram 74,7% dos entrevistados ouvidos na 130ª Pesquisa Confederação Nacional do Transporte (CNT/MDA). Outros 7,4% responderam que as prefeituras são culpadas pela proliferação do mosquito que transmite dengue, vírus zika e a febre chikungunya. Para 6,2%, o responsável é o governo federal e, para 1%, os governos estaduais. A maioria dos entrevistados (88%) disse que tem receio de contrair alguma doença transmitida pelo mosquito e 85,2% afirmaram que, para se proteger, adotaram alguma medida ou mudaram hábitos. Entre as principais medidas adotadas para evitar contrair alguma doença transmitida pelo mosquito, estão o combate a focos em casa (93,2%), uso regular de repelente (30,6%), evitar locais de grandes aglomerações (2,8%) e o adiamento de viagens.

Curso on-line treina profissionais da saúde para acabar com subnotificação

O governo federal lançou um curso on-line para capacitar profissionais de saúde sobre fatores como diagnóstico, tratamento e suspeita de casos do vírus da zika país. Desde a semana passada, a notificação de casos suspeitos da doença, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, passou a ser obrigatória. O curso, com 45 horas-aula de duração, é voltado para profissionais como médicos e enfermeiros da atenção básica e tem entre os temas os cuidados com gestantes com zika e recém-nascidos com microcefalia. De acordo com especialistas, um cenário possível para o alto número de casos de dengue no começo deste ano é a notificação equivocada de zika. As aulas foram elaboradas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Mato Grosso do Sul), em parceria com instituições de ensino e a secretaria municipal de saúde de Campo Grande. O curso ficará disponível em site da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) até fevereiro do próximo ano.

* Com Agências Brasil e AFP