GOVERNADOR VALADARES – Os prejuízos da tragédia causada pelo rompimento da barragem da Samarco ainda são incalculáveis. “Nossa luta é garantir que tudo seja ressarcido e que nenhuma cidade pague a conta que não é sua. Juntos, vamos virar a página”, diz a prefeita de Valadares, Elisa Costa.

Segundo ela, os problemas são ambientais e socioeconômicos. Mas todos os cálculos, até agora, são preliminares e deverão ser revistos porque o problema está em curso. Além dos rumores sobre a possibilidade de novos rompimentos, a lama que vazou em 5 de novembro ainda desce o rio Doce.

“Nossa estrutura é menor que o problema. É uma situação nova, ninguém viveu isso antes no país e estamos aprendendo a lidar”, enfatiza Elisa, ressaltando que toda ajuda disponibilizada por governos e sociedade chegou a Valadares.

Ações
Garantir água para a população foi a prioridade. Dentre as medidas emergenciais está o ressarcimento da prefeitura pelas despesas nos últimos 30 dias. Garantir o mesmo para pescadores, agricultores, pecuaristas e demais “órfãos” do rio Doce é outra necessidade imediata.

A médio prazo, informa Elisa Costa, está a construção de uma nova fonte de captação de água no rio Suaçuí Grande ou Pequeno, de uma estação de tratamento móvel no rio Capim e a modernização do laboratório da empresa municipal de saneamento (Saae), que teve queda na receita.
Valadares também vai cobrar a recuperação da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, a proteção das nascentes, dos afluentes e da mata ciliar, além do imediato desassoreamento do curso d’água. A intenção é formalizar tudo em um termo de ajustamento de conduta . “Se necessário, entraremos na Justiça”, diz Elisa.

Tensão constante
“A cidade está estressada, emocionalmente abalada, mas vamos transformar esse momento em realizações. Valadares está demonstrando que tem capacidade de superação, solidariedade e determinação na busca de soluções”, afirma a prefeita.
“O que aconteceu está exigindo de todos uma mudança de atitude e comportamento diante do meio ambiente e do rio, um grande símbolo de vida. É um legado educativo”, encerra Elisa Costa.

Ribeirinhos de várias cidades cortadas por rio ficam ‘órfãos’

São vários os projetos de recuperação dos danos resultantes do rompimento da barragem de Fundão em Mariana, mas a lama que desce o rio Doce também leva para o mar o que não tem preço: a companhia de um gigante que foi fonte de lazer e sobrevivência.

Há duas semanas, ao descer o rio Doce para identificar os “órfãos” que a lama fez ao longo de 600 quilômetros, a equipe do Hoje em Dia encontrou desconsolada a dona de casa Sandra Lúcia de Castro, de 46 anos. Ela nasceu às margens do rio, no distrito de Pedra Corrida, em Periquito, no Vale do Aço, onde ainda vive. No mesmo lugar, os três filhos crescem.

“Lavava roupas, vasilhas e os meninos brincavam ao redor, se distraiam pegando peixinhos. Era uma festa. Eu também cresci nessa prainha, acompanhando minha mãe. Hoje a água e só lama e tem cheiro de morte”, disse.

Outra história comovente foi a do aposentado José Lino de Marques, de 90 anos. Apesar do cenário catastrófico, ele consegue enxergar um futuro diferente, mais otimista para o rio Doce. “A água vai se recuperar rapidamente”.

Até lá, o aposentado terá muito trabalho. Os 40 porcos e galinhas que cria para vender bebiam da água do rio. Agora, tem de buscar de carroça em um açude.

“Não tenho força para ficar para lá e para cá. Sorte que a natureza dá um jeito em tudo. Daqui a pouco, cai uma chuva boa e lava essa lama toda”.