Sem previsão para ampliar a coleta seletiva porta a porta, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) promete aumentar de 70 para 200 os Locais de Entrega Voluntária (LEVs) de resíduos até o fim de 2020. Segundo a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), o congelamento do modelo que contempla só 36 dos 487 bairros de BH e atende 390 mil pessoas em 125 mil domicílios é uma forma de otimizar custos e incentivar moradores a levar o próprio lixo – papel, metal, plástico e vidro – aos pontos indicados e distribuídos pelas regionais da capital.

A proposta de fixar a coleta porta a porta e difundir os LEVs, quase triplicando os pontos na metrópole, segue o plano de gestão de resíduos da capital, lançado em 2017. É o que afirma a chefe do Departamento de Políticas Sociais e Mobilização da SLU, Ana Paula Assunção. Segundo ela, ao expandir os locais de entrega voluntária, a metrópole segue uma tendência mundial.

“O modelo ponto a ponto (LEV) tem sido amplamente utilizado em vários lugares. Afinal, a logística de recolher os resíduos nas residências é muito onerosa”, disse Ana Paula. 

Atualmente, os espaços de entrega voluntária recolhem, por mês, cerca de 188 toneladas de resíduos nos 70 pontos e 223 contêineres espalhados pela cidade. Na forma porta a porta, 355 toneladas são coletadas pelos agentes responsáveis pelo serviço. Os materiais são destinados às associações ou cooperativas de catadores e trabalhadores de recicláveis, ficando a cargo deles a separação, armazenamento, enfardamento e comercialização.

Mais de 200 contêineres estão espalhados nas nove regionais de BH para recolher papel, plástico, metal e vidro. Os resíduos descartados precisam estar limpos e secos para não causar doenças

Conscientização

Professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, Raphael Tobias de Vasconcelos Barros explica que, para o modelo dos LEVs ser expandido, é preciso muito mais do que um estudo dos locais onde devem ser instalados. Para ele, é necessário um engajamento entre poder público e sociedade para que a população entenda melhor o processo de gestão de resíduos. 

“As pessoas vão precisar incorporar essa rotina de levar os resíduos até certos pontos uma, duas vezes por semana”, comenta o docente, ao sinalizar a importância da comunicação com os moradores. 

De acordo com o especialista, todos os dois modelos têm custos e, se a população não colaborar, o sistema dificilmente irá decolar. 

A chefe do departamento da SLU explica que campanhas educativas sobre gestão de resíduos têm sido feitas em toda a capital, por meio de palestras e atividades em escolas, e que essa é uma maneira de incentivar as pessoas a contribuírem. 

Iniciativas

Ferramenta crucial para a conscientização sobre a importância da coleta seletiva do lixo para o meio ambiente, iniciativas populares usam a educação como motor de transformações. Uma das propostas é a Rede Lixo Zero Santa Tereza. Formado pela cooperativa de catadores Coopesol Leste e outros coletivos, o projeto põe a mão na massa e passa, todas as segundas-feiras, por algumas vias do tradicional bairro de BH.

Presidente da Coopesol Leste e integrante da rede, Vilma da Silva Estevam comenta que todo o material recolhido pelo motorista e dois agentes é levado à entidade para os devidos cuidados e venda. “O trabalho é feito de forma independente e autogerida”, afirma. 

Em 2018, o grupo conseguiu coletar mais de 50 toneladas de resíduos recicláveis secos, uma média de 4,4 toneladas por mês. 

Educação

Outro que acredita no “faça você mesmo” é o Cremacs Coletivo. Parceiro de 31 escolas, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação (Smed), o órgão realiza palestras educativas e propõe pontos de coleta nas unidades educacionais. 

“Nosso intuito vai além da coleta seletiva. Queremos trazer desenvolvimento social e cultural por meio dessas ações para estudantes e suas famílias”, diz Thiago Felipe, diretor-executivo do coletivo.

Ações como essas são vistas com bons olhos por especialistas. Júlia Tunes, engenheira ambiental do Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável (Insea), acredita que as iniciativas de coleta seletiva colaboram para a preservação de riquezas ambientais, como água, luz e petróleo, por exemplo. “Não fazer a separação de resíduos é desperdiçar recursos. Não só ambientais, mas também financeiros”, ressalta.