Atentado na França, golpe militar na Turquia, prisão de supostos terroristas no Brasil e, agora, tiroteio na Alemanha. Não faltam exemplos de atos de violência mundo afora às vésperas dos Jogos Olímpicos. Pelo evento, Belo Horizonte receberá dez partidas. Não bastassem os casos, que já deixam a população apreensiva, pessoas mal intencionadas podem se aproveitar do atual momento para atrapalhar o trabalho das forças de segurança da capital.

A PM recebeu, de janeiro a junho deste ano, 639 mil trotes no 190

Com a chegada da competição, a Polícia Militar (PM) teme por aumento de trotes nos pedidos de socorro recebidos pelo telefone 190. Recentemente, o Rio de Janeiro, cidade-sede dos Jogos, já sofreu com o problema: chamadas levaram equipes a atender alertas falsos no Leblon, na zona Sul, e no Jacaré e Méier, região Norte.

Chefe da sala de imprensa da PM de Minas, capitão Flávio Santiago acredita que o medo e o alerta em torno da questão terrorista acabem forçando a corporação a deslocar pessoal para ocorrências falsas. “A preocupação com os cidadãos existe e não pode ser ignorada”.

Porém, o policial não acredita em um aumento considerável dos trotes por causa do evento internacional – lembrando que as ligações do tipo crescem na época de férias. “Os oficiais do Centro de Comando (que recebe as ligações) foram treinados para lidar com alertas falsos de terrorismo. A gente avalia a modulação da voz, a riqueza de detalhes da história e a localização da chamada”. 

O capitão destacou ainda que, além do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), policiais das companhias de Missões Especiais do interior do Estado – também treinados para o desarmamento de explosivos – vão compor o efetivo de segurança da capital em agosto. Sem precisar quantos virão para BH, Santiago informou que 9 mil militares devem reforçar os trabalhos.

Caso em BH

O clima de insegurança já foi responsável por deslocar homens do Gate para um chamado falso durante o revezamento da tocha olímpica na capital mineira, em maio deste ano.

Segundo Flávio Santiago, a polícia recebeu uma ligação informando sobre um explosivo na Praça Raul Soares na data em que a tocha estaria na cidade. Os primeiros dados davam conta de uma bomba em uma pasta. “Deslocamos o pessoal necessário, mas era só um objeto esquecido por alguém que passava por lá”, relembra.

Mesmo com a cautela para identificar comunicados falsos, os atendentes de chamadas no Centro Integrado de Comunicações Operacionais mudaram as orientações para o cidadão que denuncia ou pede ajuda. “Antes, se alguém esquecesse uma mala na Praça da Estação, por exemplo, íamos verificar se o objeto tinha alguma identificação. Hoje, a primeira coisa é fazer a pessoa se afastar do lugar e esperar que um oficial treinado avalie a ocorrência”, diz.

Acesso a mensagens de suspeitos pelo WhatsApp gera dúvidas 

Apesar de não entrar em detalhes sobre como o trabalho foi feito, o Ministério da Justiça informou que uma das estratégias usadas para mapear a ação de dez supostos terroristas no Brasil, presos na quinta-feira, foi o acesso à troca de mensagens entre os envolvidos, inclusive por meio do WhatsApp. A afirmação, feita pelo ministro Alexandre de Moraes, levantou dúvidas sobre a veracidade dos fatos. Já que as mensagens são criptografadas (protegidas por meio de códigos e símbolos), como isso foi possível?

O ministro da Justiça não quis responder sobre a forma usada para acessar a conversa dos suspeitos; procurado pelo Hoje em Dia, o ministério informou que o assunto deveria ser tratado com a Polícia Federal, mas ninguém da corporação foi localizado para esclarecer o fato

Segundo o coordenador de projetos do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS-Rio), Marco Konopacki, o acesso às mensagens trocadas através do WhatsApp só poderiam ocorrer em duas circunstâncias. “Se o usuário estiver utilizando a versão antiga do aplicativo, que não contava com a criptografia – e isso vale para grupos em que um dos integrantes usa a versão antiga, ou descriptografando as mensagens”.

Para o especialista, a possibilidade dessa última opção ter ocorrido é muito remota. “Para transformar números, letras e símbolos sem sentido em algo legível levaria, em um computador comum, algo em torno de nove anos. Num supercomputador poderia ser feito em três meses. Estamos falando de trilhões de combinações possíveis”, explica Konopacki.

Na visão de Konopacki, o sigilo das informações é benéfico e não se deve discutir uma forma de mudar o que já está posto. A discussão deveria girar em torno da adoção de práticas investigatórias que não dependessem exclusivamente dessas mensagens trocadas via aplicativo.