Pelo terceiro ano consecutivo, os belo-horizontinos passarão o Natal sem ver o movimento das 586 peças do Presépio do Pipiripau, principal representação do nascimento de Cristo na cidade. A previsão é a de que a restauração seja concluída em abril de 2016, mas, até lá, os admiradores da obra poderão acompanhar os trabalhos de recuperação. A partir deste mês, será possível agendar visitas guiadas.

A obra, criada em 1906 pelo artesão Raimundo Machado, traz centenas de personagens entre animais e figuras bíblicas. Além da representatividade histórica, o presépio surpreende pela complexa engenharia. São 45 cenas movimentadas simultaneamente por meio de um motor.

“Para a restauração, as peças são soltas, etiquetadas com um código, mapeadas na estrutura, fotografadas e ainda passam por uma avaliação”, explica a coordenadora técnica dos trabalhos de recuperação, Thaís Carvalho.

A primeira etapa é a limpeza, que inclui retirada de graxa, óleos, fungos, cupins e outros resíduos. Depois, a maior parte dos objetos recebe uma massa de papel marché que cobre pequenas imperfeições e buracos. Há o nivelamento da estrutura que, em seguida, é pintada com uma tinta guache especial.

“Com a restauração, é como se o dano não existisse. Somente é visível com equipamentos profissionais”, conta Thaís.

O motor, que faz a estrutura se movimentar, também precisará de cuidados. Segundo a restauradora, a meta é remover apenas as peças com defeitos para conservar as características originais do presépio. Essa etapa será feita por um engenheiro mecânico especializado, mas ainda não tem data definida para acontecer.

As visitas para acompanhar as etapas dos trabalhos serão iniciadas até o dia 15 de dezembro, segundo o coordenador-geral da restauração e professor da Escola de Belas Artes da UFMG, Fabrício Fernandino. Além das atividades da equipe, composta de seis profissionais, o público poderá visitar uma exposição na entrada do laboratório, com fotos e banners que retratam a história do presépio.

Informações sobre horários e datas para agendamento podem ser obtidas pelo (31) 3409-7603.

HISTÓRIA

Em 1976, o presépio foi doado para a UFMG e tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1984. Em 2012, iniciou-se um diagnóstico para mapeamento da estrutura e do modo de funcionamento dela. O estudo para subsidiar a restauração foi concluído apenas dois anos depois, e os trabalhos começaram em abril deste ano.

De acordo com o professor Fabrício Fernandino, esse foi um dos motivos que postergaram o início da recuperação. “Não é um restauro simples. Trata-se de um projeto nada convencional. Por isso, foi preciso realizar uma pesquisa associada. Mapeamos toda a estrutura física antes da restauração das peças”, explicou.

Além disso, o restauro inclui etapas minuciosas, que podem demorar vários dias. Os danos nas peças e materiais empregados são alguns dos obstáculos encontrados pelos especialistas. “Ele usava de tudo – madeira, seda, concha. Para muitos desses materiais, não temos técnicas conhecidas e foi necessário desenvolvê-las”, observou Fabrício.

Todos os métodos utilizados para a recuperação do presépio serão reunidos em um livro. A ideia é mostrar como recuperar materiais diferentes como os utilizados no presépio.

Presépio do Pipiripau está aberto à visitação

Espaço moderno abrigará acervo

Em outra etapa, o presépio do Pipiripau vai ganhar um espaço mais moderno. Uma nova edificação será erguida no mesmo local e terá amplo espaço para circulação dos visitantes, oficina de manutenção das peças, áreas técnicas e dois ambientes expositivos.

Um dos grandes diferenciais do projeto é a possibilidade de conhecer os detalhes do motor, que faz as cenas do presépio se movimentarem. “A ideia é que a pessoa entre e veja as cenas e, depois, conheça a engrenagem por trás da peça”, explicou o arquiteto responsável pelo projeto, Bruno Santa Cecília.

Para virar realidade, ainda é preciso captar os recursos financeiros para a construção. Outra dificuldade será proteger o presépio durante as obras. Como não será possível retirá-lo do local, um contêiner metálico será montado em volta do patrimônio, durante a demolição do antigo abrigo e a construção do novo.

A edificação também será integrada com o Jardim Botânico do Museu de História Natural da UFMG, por meio de uma das fachadas de acesso ao presépio. Por isso, é previsto o uso de materiais que garantam a proteção da obra contra o tempo e a umidade. O espaço também será completamente acessível a cadeirantes.

Laboratório

O local atualmente utilizado pelos restauradores foi montado, em abril, em uma sala antes utilizada pelos visitantes. Foram instaladas mesas e prateleiras improvisadas. Com a nova edificação, a equipe terá um espaço mais adequado para a recuperação das peças. A oficina de manutenção ficará disponível para os frequentadores por meio de uma área de exposição isolada por vidros.

Ao lado haverá, ainda, um espaço para o Presépio do Pipiripim, criado na década de 1960 também por Raimundo Machado. Feito de sucatas, massa de papel e gesso, o monumento também é movimentado por um motor elétrico.

70 anos para ser construído

O presépio do Pipiripau foi estruturado, entre 1906 e 1976, na antiga Colônia Américo Werneck. A região era conhecida como Pipiripau, fazendo com que o presépio recebesse o mesmo nome. As 45 cenas envolvem composições religiosas (cenas da vida de Cristo) e profanas. Segundo pesquisa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), não há preocupação com a sequência cronológica das cenas, que possuem cinco planos. As pinturas das paredes laterais e do fundo dão continuidade e unidade às cenas. As figuras estão dispostas em um cenário de 4 metros de largura, 3,20 metros de altura e 4 metros de profundidade.