Quem não conhece as mulheres que vencem a altura dos vagões e as pedras soltas nos trilhos para oferecer doces aos viajantes que passam por Tumiritinga, no Vale do Rio Doce? Só mesmo quem nunca viajou de trem rumo ao litoral capixaba. Mas essa venda ambulante, tão antiga quanto a estação, de 1911, está prestes a entrar para a história. A formação de uma cooperativa vai permitir a comercialização das iguarias dentro do trem.


A profissionalização das “cocadeiras de Tumiritinga” está sendo feita por meio de uma parceria entre a Vale, a Fundação Vale e a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O objetivo, além de evitar acidentes, é garantir que tenham trabalho e renda após o cercamento da linha de ferro nas imediações da estação, previsto para este ano.


A iniciativa surgiu após uma pesquisa identificar 32 mulheres e apontar a venda de doces artesanais, em especial a cocada, como atividade cultural e principal fonte de renda das famílias.


Vinte aderiram ao projeto “Doceiras de Tumiritinga” e, desde abril, aprendem sobre qualidade, gestão de negócios, cooperativismo e a importância do uso dos equipamentos de proteção individual (EPIs), como luvas, touca, avental e botas.


Menos açúcar

 

A produção é feita sob a supervisão da nutricionista Carolina Trassi Freitas, que ensina técnicas e truques que tornam os produtos mais competitivos e rentáveis, sem, contudo, alterar o sabor.


Mas, segundo ela, não foi fácil vencer a resistência das doceiras. “Afinal, as receitas atravessaram gerações e as vendas provavam que eram boas”, diz. “Já conseguimos reduzir a quantidade de açúcar pela metade”, comemora.


Além da padronização do tamanho, os doces agora vêm com selo de qualidade, data de vencimento, lista de ingredientes e valor nutricional na etiqueta. A produção é vendida no restaurante do trem de passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e feiras livres da região.


MAIS TEMPO


Desde o início do projeto, em abril, foram vendidos 3.600 doces nos vagões. Fora dos trilhos, cerca de 2 mil unidades.


“Se em três minutos de parada do trem nós vendíamos muito, imagine agora, em 13 horas de viagem?”, diz Sirlei Barbosa, de 35 anos, referindo-se ao tempo que o trem leva para fazer o percurso entre Belo Horizonte e Vitória (ES).


“Estou ansiosa para fazer uma viagem dessas e, como passageira, ver meu doce sendo oferecido dentro do trem. É muito orgulho, um sonho acontecendo”, diz, brincando que uma das vantagens é economizar na compra de chinelos. “As pedras dos trilhos são terríveis. Toda semana arrebentava um pé de chinelo”.