Nuria Candeias Ferreira tem apenas 8 anos, mas o raciocínio acelerado na hora de utilizar o computador é capaz de provocar inveja em muitos marmanjos. Cristian Haniel Silva, 9, sabe de cor e salteado as espécies das cobras e quais são ou não venenosas. Já Reiner Jesus Martins, 9, nasceu sem os braços, mas tem uma inteligência motora fora do comum: se alimenta, escreve e até manuseia o microscópio com o pé direito, além de soltar pipa segurando a linha entre os dentes.

O trio de pequenos prodígios integra um seleto grupo de 39 crianças e adolescentes com habilidades especiais atendidos por um projeto da Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da PUC Minas. Todas as segundas-feiras, os jovens, considerados superdotados, se reúnem com professores e alunos da universidade para desenvolver as potencialidades, enriquecer a aprendizagem e trabalhar as relações interpessoais.

As atividades oferecidas a jovens dos 5 aos 15 anos acontecem há sete anos e foram expandidas em 2016. Novas vagas passaram a ser ofertadas no turno da manhã. Interessados ainda podem se inscrever, conforme reforça a coordenadora do projeto, a doutora em educação, Karina Fideles. “Estamos abertos a receber crianças ao longo de todo o semestre”, garante a professora, que atua na PUC há 12 anos.

Atividades

Dentro do campus do Coração Eucarístico, região Noroeste de BH, os meninos e meninas têm contato com todas as instalações da instituição, como o museu, salas de aula, áreas verdes e laboratórios de biologia, informática, anatomia, dentre outros espaços. São várias atividades sob a responsabilidade de graduandos em Psicologia, Ciências Biológicas e as engenharias Mecânica e de Controle e Automação.

Na semana passada, Rafaela Brandão Vida, de 5 anos, e Julia Freitas Coelho, 7, puderam acompanhar os testes de qualidade da água de um dos lagos artificiais da faculdade. As garotinhas coletaram amostras e fizeram análises no laboratório. Em uma mesa ao lado delas estava Reiner Martins, demonstrando toda a destreza ao utilizar o microscópio usando apenas um dos pés.

Os jovens participam das atividades no campus do Coração Eucarístico pela manhã  e à tarde

Estudante de escola pública, o pequeno morador de Juatuba, região Central de Minas, já tinha participado do projeto, mas foi obrigado a largar devido à incompatibilidade de horário – o programa da PUC exige frequência regular de todos os participantes nas escolas de origem. Muito tímido, o menino de poucas palavras garante que adora o local.

A mãe dele, a dona de casa Kátia Cecília da Silva, de 49, rasga elogios ao aprendizado disponibilizado na universidade. “Ele amadureceu”, conta. O menino sempre se mostrou acima da média dos demais colegas de escola. “É diferenciado e precisava de um lugar como esse. O raciocínio e a capacidade de aprender são impressionantes. Infelizmente, o ensino atual está defasado”.

Apesar das limitações físicas, Kátia garante que tem criado um filho preparado para enfrentar os desafios. “Dou a ele todo o carinho necessário, mas trato de igual para igual com os dois irmãos. Quando é preciso, toma até castigo. E se alguém o chamar de aleijado, tenho certeza de que ele vai se apresentar como Reiner. Nunca vai responder com hostilidade o despreparo das pessoas”.

Para participar do projeto, os responsáveis pelos jovens devem entrar em contato com a instituição para agendar uma entrevista pelo telefone (31) 3319-4945 ou e-mail: projetocriancaseadolescentes@gmail.com

Mercado de trabalho

Ao desenvolver as habilidades dos jovens, consequentemente o projeto os prepara para o mercado de trabalho. Zeinner José de Paula é o principal exemplo disso. O adolescente participa das atividades há sete anos e, hoje, conseguiu um estágio na universidade.

Aos 14 anos, o menino é um dos responsáveis pelas visitas guiadas no Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, espaço que tem a maior coleção científica do Estado. Zeinner domina áreas como a paleontologia. “Aqui me sinto à vontade. Algumas pessoas nos acham esquisitos, e até somos um pouco”, brinca o garoto. 

Os alunos da PUC que monitoram as atividades junto às crianças e adolescentes também elogiam a oportunidade. “Encontramos gratas surpresas. Os meninos aprendem muito rápido. E isso acaba nos motivando, pois temos desafios diários. A cada encontro é preciso trazer algo novo para eles”.

Professora parceira do projeto, a bióloga Virgínia Simão Abuhid diz que a iniciativa promove “ótimas” trocas de experiências entre os universitários e o público mirim. “O estudante da PUC ajuda a planejar, executar e avaliar as atividades desenvolvidas. É um excelente aprendizado para um futuro professor”. Segundo ela, reuniões com os pais e responsáveis pelos meninos também são realizadas para enriquecer ainda mais as atividades.