Belo Horizonte pode ganhar mais 71 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus a partir de 2020. A ideia é levar os espaços destinados privativamente ao transporte coletivo para locais distantes do Centro, a exemplo do que já acontece nas avenidas Augusto de Lima e Nossa Senhora do Carmo. 

Ao todo, a expectativa é a de criar 14 rotas em regiões como a Leste, a Noroeste e Venda Nova. Corredores importantes como Afonso Pena, Contorno e Raja Gabáglia, na Centro-Sul, também serão contemplados.

A ampliação foi anunciada no fim de dezembro do ano passado, junto ao aumento de R$ 0,45 na tarifa dos coletivos. À época, a BHTrans informou que a medida era um pedido do sindicato das empresas.

Colocar o plano em prática, porém, depende de vencer alguns desafios. Conforme especialistas, a largura de algumas ruas e avenidas escolhidas para ganharem as faixas exclusivas, conforme consta no edital da PBH aberto em 14 de fevereiro, seria um entrave. As vias seriam estreitas demais.

O certame está na fase de recursos, mas a previsão é a de que os vencedores dos cinco lotes disponibilizados assinem o contrato para a elaboração dos projetos executivos dentro de três meses. 

Diretora de Planejamento e Informação da BHTrans, Elizabeth Gomes explica que a expectativa é a de que os materiais, que vão dar informações necessárias para a implantação das faixas, estejam prontos em abril de 2020. “Nesse processo, será feito todo o levantamento das vias, se há necessidade de alteração de calçadas ou alguma outra mudança”, frisou.

Com o diagnóstico pronto será possível fazer as intervenções necessárias, desde que haja verba. “Ainda não temos data definida para começar a implantação dos espaços”, observou Elizabeth.

Avenida Afonso Pena
Carros e ônibus podem ter espaços separados na avenida Afonso Pena, por onde passam 290 coletivos por hora, em cada sentido, no pico

Critérios

As vias foram escolhidas de acordo com a concentração de volume de ônibus, destacou a diretora da BHTrans. 

Na avenida Afonso Pena, no Centro, por exemplo, transitam cerca de 290 ônibus em cada sentido, por hora, nos horários de pico em dia útil. Já na Abílio Machado, que passa por bairros como Alípio de Melo e Glória, Noroeste da metrópole, são 120 ônibus por hora, nos horários de pico.

Estreitas

O problema, no entanto, está em corredores que não têm estrutura para comportar o tráfego de ônibus e carros em faixas separadas, afirmam especialistas. 

É o caso da rua Padre Pedro Pinto, em Venda Nova. Estreita, assim como a Abílio Machado, a via tem estabelecimentos comerciais e estacionamentos, além de receber diversas linhas de ônibus da capital e da Grande BH.

Hoje, quem utiliza coletivo que passa por lá reclama. Moradora do bairro Piratininga, a estudante de psicologia Alana Beatriz, de 18 anos, diz que pode levar até 40 minutos para chegar às avenidas Vilarinho e Pedro I, num trecho de cerca de cinco quilômetros. “Seria muito bom a faixa exclusiva, mas a rua é muito estreita”, lamenta. 

Especialista em transporte e trânsito, Márcio Aguiar acredita que o projeto terá obstáculos pela frente. “Para implantar faixa exclusiva a via precisa ter, no mínimo, 13 metros de largura. Caso contrário, é preciso pensar em desapropriações para alargamento, e este é um processo muito problemático”, explica.

“A maior parte das pessoas se desloca de ônibus; é preciso melhorar esse transporte sem travar a economia da cidade” (Silvestre de Andrade)

Reduzir impactos

Investir na melhoria do transporte público sem impactar a vida de moradores e comerciantes nas regiões mais movimentadas da cidade é o grande desafio para a mobilidade urbana em Belo Horizonte. A avaliação é do consultor em trânsito Silvestre de Andrade Filho.

Ele afirma que a implantação de faixas exclusivas para o Move em avenidas como a Silviano Brandão, na região Leste da capital, podem ser operações problemáticas, mas não impossíveis. “O importante é que haja bons projetos, que atendam às necessidades do sistema de transporte sem prejudicar o movimento local dos lojistas”, afirma. “Que a cidade precisa investir em mobilidade é inquestionável”, garante.

avenida pedro II
Comerciantes da avenida reclamam da implantação dos espaços destinados ao transporte coletivo

Impasse

Nos grandes corredores onde a faixa exclusiva já foi implantada, muitos comerciantes garantem que o movimento de clientes caiu, devido à dificuldade de acesso às lojas e à falta de vagas para estacionar.

Na avenida Pedro II, Noroeste de BH, o problema se tornou cotidiano. Fábio Dias, supervisor de vendas da Loja Elétrica, afirma que a implantação da pista exclusiva acabou dificultando a vida de condutores que pretendem estacionar em frente ao estabelecimento. 

“O nível de dificuldade para parar o carro por aqui aumentou porque os motoristas de ônibus geralmente não respeitam muito os clientes. Eles buzinam e muitas vezes freiam em cima dos veículos”.

Atendente da Autoescola Ronan Bibiano, localizada na mesma avenida, Kátia Batista diz que as mudanças realizadas na via prejudicaram o volume de visitas recebidas pela empresa. “Para parar aqui, é preciso ir para o quarteirão de cima e, mesmo assim, pelejar pra encontrar vaga”, diz.