Lesões extensas e incômodas pelo corpo, olhares estranhos nas ruas e vergonha da aparência da pele são fatos comuns àqueles que têm psoríase, uma doença dermatológica que atinge cinco milhões de brasileiros, mas que ainda é desconhecida por grande parte da população.

A enfermidade, que é incurável e possui evolução crônica, causa feridas vermelhas e descamativas que causam coceira e aparecem, principalmente, nos cotovelos, joelhos e couro cabeludo. 

Muitas vezes, pela aparência dos machucados ser chocante, leigos acreditam que a psoríase é contagiosa e a crença acaba por impactar no trabalho, lazer e nos relacionamentos pessoais de quem tem a doença. 

Caso da representante comercial Marcia Mellado, de 51 anos, que convive com a enfermidade há 12. “As pessoas me olham de forma diferente e comentam porque acham que é contagioso. Às vezes, eu mesma fico constrangida de entrar em uma piscina, por exemplo, mesmo sabendo que não é”, revela. 

A percepção quanto aos olhares estranhos não é tão presente no caso da assistente social Leamara Figueiredo, de 29 anos. “Quando a doença se manifesta em mim, as lesões aparecem mais no pescoço e nos cotovelos, mas somente as pessoas mais íntimas é que perguntam sobre as casquinhas”, diz. Ela conta que evita usar blusas escuras para não evidenciar a descamação da pele na roupa.

“Meu marido e meus filhos ficam me vigiando para que eu não coce as lesões e me machuque”
Marcia Mellado, 51 anos

Pesquisa

Os impactos vividos por Marcia e Leamara são percebidos por 54% das brasileiras que têm psoríase, enquanto que a mesma compreensão é tida por 28% dos homens nesta condição. Os dados são de uma pesquisa divulgada no último dia 20 pelo Instituto de Pesquisa em Felicidade da Dinamarca.

A organização mostrou, em um relatório global produzido em 184 países, com mais de 120 mil entrevistados, as repercussões negativas da doença na felicidade das pessoas com psoríase.

“Nossos dados indicam que o impacto negativo de doenças crônicas podem estar fora do radar das autoridades de saúde, uma vez que as sociedades estão deixando as pessoas que sofrem para trás”, afirma Meik Wiking, CEO do instituto dinamarquês.

No índice mundial, o Brasil ficou classificado como o quarto país mais feliz do mundo, no entanto, apesar disso, perto de 69% acreditam que não há conscientização pública suficiente sobre a doença. 

“O brasileiro tem uma característica de ser guerreiro, otimista. Por isso, pode ser que a reação seja diferente em relação a outros países. Mas, parte do que eles sofrem de preconceito vem da desinformação, o que aumenta a discriminação, dificulta a vida do paciente. Eles tentam esconder a doença, ficam estigmatizados”, observa o dermatologista Marcelo Arnone, coordenador do Ambulatório de Psoríase do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Influência do estresse

Tanto Marcia Mellado quanto Leamara Figueiredo são categóricas ao determinar o que desencadeia as crises e piora as lesões: o estresse. Mas a psoríase não é uma doença emocional.

A enfermidade é multifatorial, cuja causa não é totalmente conhecida. Acredita-se que há o componente genético e o autoimune. Porém, fatores externos como o estresse desengatilham a doença, é o que afirma a dermatologista Tathya Taranto, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

“O estresse é um gatilho e pode tanto começar quanto perpetuar uma psoríase. É um dos fatores principais de desenvolvimento da doença. Por isso, além do dermatologista, é importante o acompanhamento de um psiquiatra ou psicólogo no processo de tratamento. O paciente fica muito chateado com a situação”, coloca.

Como é uma doença sem cura, gera, por si só, ansiedade, expõe o dermatologista Lucas Miranda, também membro da SBD. “As doenças dermatológicas, de forma geral, como a psoríase, causam uma certa surpresa, uma sensação ruim quando descobertas. Às vezes, em graus mais leves da enfermidade, o tratamento é apenas um banho de sol. O preconceito, na verdade, é a grande mazela da psoríase”, afirma o especialista.

Os tratamentos da doença envolvem cuidados multidisciplinares que vão de hidratação intensa do corpo com cremes a base de corticoide, vitamina D, ureia e outros compostos para reduzir o quadro descamativo, a uma gama de remédios que podem ser usados de forma sistêmica, por via oral e até venosa, para casos mais graves e quadros extensos. 

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