Uma metrópole em adaptação para conter o vírus que dizimou milhares de vidas ao redor mundo. Esse é o desafio de Belo Horizonte, que desde ontem adotou a quarentena e a partir de amanhã vai proibir o funcionamento de shoppings, bares e restaurantes – exceto para delivery – numa medida drástica contra a Covid-19, doença que já matou quatro brasileiros e foi confirmada em pelo menos 19 mineiros. 

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O taxista José Vicente amarga o sumiço de passageiros: “Tenho que trabalhar”

No primeiro dia de isolamento, escolas públicas e privadas não abriram as portas. Parques, teatros e vários equipamentos culturais também permaneceram fechados. O reflexo veio no trânsito, que não registrou engarrafamentos, e no transporte público – nos ônibus, o movimento caiu 20%, segundo o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros (Settra-BH). 

A decisão histórica e inédita de pedir o exílio da população, porém, não foi seguida por muitos belo-horizontinos. No hipercentro, a circulação de pessoas foi considerável durante todo o dia. 

Algumas, apesar do medo da Covid-19, alegaram não ter opção: saíram de casa para trabalhar ou cumprir compromissos inadiáveis. Caso da aposentada Abigail Pereira da Silva, de 76 anos, que está com o companheiro internado em um Centro de Terapia Intensiva (CTI). 

Mesmo com a idade avançada e hipertensa – o que a coloca no grupo de risco da doença –, a idosa circulou pela cidade usando uma máscara. “Não quero ficar doente, mas sou a única pessoa que pode dar suporte para o meu marido”.

O flanelinha Wander Wagner dos Reis, de 51 anos, também admite que não conseguirá ficar de quarentena. “Sou autônomo e preciso de dinheiro para sobreviver. Mas, como não quero ser infectado, vou trabalhar usando máscara”, contou, enquanto carregava o celular na rodoviária de BH. O vaivém de usuários no terminal, conforme funcionários do local, estava abaixo da média, mas ainda alto.

Cruzar os braços também não passa pela cabeça do taxista José Vicente de Paula, de 67 anos. “Tenho que pagar o aluguel e o plano de saúde da minha família, que é de quase R$ 2 mil”, diz o autônomo. 

Acostumado a rodar de segunda-feira a sábado, ele amarga o sumiço dos passageiros, mas faz parte da legião de trabalhadores que não tem a opção de se recolher em casa. “Na terça-feira, foram quatro viagens em 13 horas de jornada e voltei para casa com R$ 50”, contou, ontem, durante a espera de quase três horas por uma corrida. “Com medo eu fico, sou idoso. É uma doença misteriosa, e com cada pessoa que entra no carro eu não sei o que vem. Me viro como posso. Com vidro aberto, álcool gel e lavando as mãos”.

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Algumas pessoas que precisaram circular pelas ruas da capital, principalmente idosas, lançaram mão de máscaras para a proteção

Sem medo

Houve ainda os que rodaram pela cidade por estarem alheios à doença, como o ajudante de obra Emerson Renê da Silva, de 37 anos. Ontem, ele foi procurar refúgio no Parque Municipal, sem saber que a área foi interditada como medida de prevenção ao novo coronavírus. “Estou desatualizado das informações, mas se é para conter uma doença, é importante”. 

Colaboraram Ana Paula Lima e Renata Galdino

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