Servidor público de carreira, Célio Freitas Bouzada, atual presidente da BHTrans, começou a jornada há 27 anos na empresa que gerencia o trânsito na capital mineira, na função de analista de tarifas e custos. Com o tempo, ocupou os cargos de gerente de controle, coordenador de projetos especiais e diretor de planejamento até chegar ao posto atual.

Formado em administração de empresas, também é pós-graduado em finanças e tem mestrado em regulação econômica com foco no setor de transportes. Em entrevista ao Hoje em Dia, Bouzada afirma que, ao contrário dos que condenam a utilização de radares, alegando existir uma “indústria da multa”, os equipamentos eletrônicos são responsáveis por evitar centenas de mortes todos os dias. 

A regulamentação dos patinetes elétricos na capital está sendo tratada em projetos diferentes pela BHTrans e pela Câmara Municipal. Por que há duas iniciativas distintas? 
O patinete é uma novidade em BH, mas também no Brasil e no mundo. Paris proibiu, Alemanha e Espanha têm movimentos favoráveis e outros contrários. Los Angeles proibiu e voltou atrás, São Paulo criou um regramento. Nós estamos olhando para tudo isso e analisando nossa realidade para definirmos qual caminho adotar. Não queremos fazer algo muito restritivo, estamos preocupados com a segurança das pessoas. Nosso projeto

não conflita com o da Câmara. São cenários distintos. O deles é maior e mais genérico. O nosso quer copiar o que foi feito de bom em outras capitais. O foco é preservar a integridade física das pessoas. De resto, queremos que o mercado se estabeleça e que venham mais empresas. 

O uso de capacete nas patinetes pode se tornar obrigatório? 
Nós vemos com bons olhos a necessidade do capacete, mas quem vai fornecê-lo? Nós esperamos que o próprio provedor do patinete resolva isso.

E as ciclovias para que os próprios patinetes, além das bikes, possam transitar? Há previsão para expansão?
Temos o projeto Pedala BH, que contempla políticas públicas voltadas para as bicicletas. A gente lida com orçamentos escassos. Diante disso, não dá para fazer tudo que gostaríamos. Ainda assim, publicamos licitação para contratar projetos de ciclovia. Depois disso, queremos buscar financiamento junto ao governo federal para executar. Recursos próprios, não temos. 

Mas há previsão?
Tendo o projeto pronto, é possível pleitear o financiamento. A obra é outra licitação e depende disso. Estamos buscando que as ciclovias se integrem com o transporte público, ou seja, sempre em direção ao Move ou ao metrô. São cerca de 60 quilômetros projetados.

Haverá implantação de novos radares na cidade até o fim do ano? A postura do governo federal influencia nas decisões da BHTrans?
Nós respeitamos toda opinião dada sobre o tema. Há quem diga que é uma indústria da multa. Para mim, radar é a indústria da vida. Nós temos em BH dois pontos onde todo fim de semana morria um jovem antes da implantação de radares: na avenida do Contorno, próximo ao Hotel Mercure, e na Catalão, na descida do Cemitério da Paz. Nossos números mostram que as vítimas fatais tem diminuído. As multas, de uma forma ou de outra, tornam as pessoas mais atentas. Nós temos que avaliar se é preciso trocar algum aparelho de lugar. 

Quais são as principais ações pensadas para o Anel Rodoviário? 
O prefeito tem uma preocupação muito grande com a segurança do Anel. Quando há acidentes, as vítimas são de BH ou da região metropolitana. Nós já contratamos um projeto para instalar as caixas de brita (área de escape para carretas que possam perder o freio). Estamos fazendo na altura do Betânia, mas terá outros três pontos. 

Mas e a construção do Rodoanel, apontando como a solução definitiva para o problema?
Não sabemos nem em que pé está. Há tempos o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) não nos procura para tratar do assunto. 

Sobre o rotativo digital, qual é o balanço até o momento? 
Na nossa avaliação é um sucesso absoluto. Não vejo nenhum usuário reclamando, até porque ele foi implantado a partir de pesquisas que fizemos previamente. Nós disciplinamos o uso e melhoramos significativamente o trânsito. 

A cidade está repleta de entregadores trabalhando para aplicativos de maneira irregular, com mochilas térmicas ao invés do baú. O que vai ser feito a esse respeito? 
A grande preocupação é que eles são as maiores vítimas do trânsito atualmente em BH. O problema maior é o incentivo ao excesso de velocidade por parte desses provedores. A partir do momento em que eles premiam quem faz a entrega em menos tempo, estão criando risco para o motociclista e para quem está ao entorno dele. Estamos tentando incentivar que os pilotos façam cursos de direção defensiva. Temos que alertar essas empresas sobre a responsabilidade social delas. Ganhar dinheiro colocando a vida do colaborador em risco é algo que tem que ser repensado.

Mas e o uso das bolsas térmicas? Vai ser proibido? 
Vencendo essa parte, podemos discutir a questão das bolsas. O Código de Trânsito manda usar baú. Mas, sabemos que parte desses motociclistas não é motofretista profissional. Geralmente, fazem bico por desemprego ou para aumentar a renda. Num momento de recessão econômica, é natural que isso aconteça. Então, não perdemos o foco no baú, mas precisamos priorizar essa questão da velocidade. 

As empresas de ônibus continuam circulando sem cobradores e, mesmo autuadas, não pagam as multas. Como isso vai ser resolvido? 
Temos um caminho, que poderia ser perverso, de proibir os ônibus de circular sem cobrador. Mas assim, quem perde é a população. Então nós lidamos com isso com muito cuidado, sempre tentando preservar as viagens mesmo que não tenha cobrador. Tecnicamente, defendemos que sejam identificadas as linhas onde é preciso cobrador, ou seja, onde há mais pessoas pagando com dinheiro. Estamos estudando também o pagamento da passagem com o uso do celular, por meio de um QR Code. 

Essa tecnologia já está sendo testada? 
Sim, digamos que “em laboratório”. Nós já temos no Barreiro a geração de QR Code em papel, então a pessoa que quer pagar já pode comprar na maquininha e entrar. O próximo passo é pagar com o próprio celular. O problema é você ter mecanismos de segurança para evitar fraudes. Nossa expectativa é que isso seja feito no decorrer desse ano. Queremos facilitar a vida do usuário com mais de uma maneira para pagar. 

Os cobradores seriam demitidos? 
Verificamos que, normalmente, os cobradores se tornam motoristas ou vão para a área de mecânica, dependendo da habilidade de cada um. Esse profissional não vai perder o emprego, mas sim mudar de função. 

As regras para os aplicativos de transporte, que determinam idade máxima para os veículos, motivaram críticas de muitos motoristas. Algo pode ser revisto?
O regramento não é feito nem para o motorista nem para o taxista. Ele é feito para o bem da população de BH. Ou seja, é para que as pessoas não sejam obrigadas a circular em carros velhos, sem segurança. Você pode pegar seu carro velho e colocar sua família dentro. Mas você não tem direito de colocar outra família ali. Estamos nos ocupando com o bem-estar da população e para isso precisamos ter regras. <CW0>Nós fomos até razoáveis com os veículos porque há uma regra de transição para essa adequação. A maioria dos motoristas trabalha com carro alugado, que é zero. Então, isso não tira pessoas do mercado como eles argumentam. Os aplicativos têm que estar a serviço da cidade e não a cidade a serviço deles. Isso sem falar que os motoristas são explorados. Então, entendemos que o regramento ajuda até eles. 

Mas eles afirmam que com as novas exigências, a tarifa vai aumentar e o usuário é que vai pagar as contas no final...
Isso não faz sentido. Nos dias de chuva e de festa, eles já aumentam a tarifa. Não é a idade do carro o fator determinante para eles aumentarem o preço. Isso é um discurso fácil de vender, mas o que regula o preço deles é o preço do táxi. Para o motorista, é exploração ainda mais quando ele paga aluguel do carro. Como a gente não controla um motorista que dirige 24 horas por dia? E se ele cochilar? Se um dia conseguirem acabar com o sistema de táxi, o preço vai subir muito porque eles não terão um sistema natural para regular o preço deles. 

Mas o regramento entra no mérito da carga horária do motorista de aplicativo? 
Não, mas acho que a partir do momento que eles perceberem que o regramento é bom, vão exigir isso. Os mais atentos já entendem que não estamos contra eles.

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