Pelo menos 170 mil cães e gatos estão expostos ao vírus da raiva em BH. A meta de vacinação estipulada pelo Ministério da Saúde, de 80%, não é alcançada na metrópole há no mínimo três anos. Em 2018, até agora, apenas 64,78% do público-alvo recebeu as doses, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA). Realizada no último dia 22, a campanha de imunização teve que ser prorrogada porque somente 235 mil bichos foram protegidos.

A situação deixa o município em alerta. Nove morcegos contaminados pelo vírus foram identificados pela prefeitura em sete regionais. Professora do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da UFMG, Danielle Ferreira diz haver risco caso o exemplar doente tenha contato físico ou por secreções com pessoas, cachorros e felinos. 

A capital não registra casos de raiva em humanos e animais desde 1984 e 1989, respectivamente. A vacinação é a forma mais eficaz de se proteger contra uma doença altamente letal, afirmam especialistas.

O alerta toma maiores proporções porque 19 pessoas morreram, no ano passado, em decorrência da enfermidade em países da América Latina. Na última semana, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) anunciou que a raiva canina ainda está ativa na Bolívia, Guatemala, Haiti e República Dominicana – nações que tiveram mais de mil casos.

Dificuldades

Um dos motivos para a baixa cobertura vacinal contra a raiva em BH é que muitas pessoas acreditam ser desnecessária a imunização a cada 12 meses. Porém, a docente da UFMG afirma que a sorologia (estudo das reações do anticorpo que pode identificar se o bicho está protegido contra a doença) é muito cara. “E, após esse período, não há garantia de que o animal esteja livre de contágio”, destaca Danielle.

A validade do efeito da proteção, explica o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais, Bruno Divino Rocha, decorre de a vacina ser produzida a partir de vírus morto, o que a faz durar, em média, até um ano e meio.

Outro fator, conforme Danielle Ferreira, é que a população não se preocupa tanto com a doença, uma vez que não há ocorrências dela. “No caso dos gatos ainda tem um agravante. Se ele fica em um apartamento no 10º andar, por exemplo, o dono pensa que o bicho de estimação não precisa ser vacinado. Mas um morcego infectado pode entrar pela janela e, se o animal não estiver protegido e tiver contato, corre o risco de ser contaminado”, frisou a professora da UFMG.

Desafios

Na capital, o maior desafio são os gatos, diz o secretário-adjunto de Vigilância e Promoção à Saúde da SMSA, Fabiano Pimenta. Segundo ele, a população felina cresceu 150% nos últimos oito anos. O Parque Municipal é um dos locais com maior número desses bichos, mas ele garante que metade dos animais de lá já foi vacinada.

Conforme o gestor, cachorros e gatos encontrados abandonados nas ruas recebem atenção. Eles são levados para o Centro de Controle de Zoonoses, onde são imunizados.

Os nove morcegos identificados estão sendo analisados em laboratório. A orientação da Secretaria de Saúde é, ao encontrar um animal do tipo morto, acionar o Centro de Controle de Zoonoses para o recolhimento.