A polêmica sobre o retorno das aulas em Belo Horizonte voltou à tona depois de o Colégio Militar, vinculado ao Exército, anunciar a retomada das atividades na próxima segunda-feira. De um lado, pais, professores e médicos que temem a escalada de casos de Covid-19. De outro, famílias que reivindicam o retorno dos filhos às instituições de ensino.
Os favoráveis, inclusive, organizam uma manifestação no próximo domingo, na Praça da Liberdade, região Centro-Sul da capital. Organizadora do ato, a gerente comercial Sheila Freire, de 37 anos, afirma não ver sentido na continuidade do isolamento para as crianças. 

Ela alega ter sido comprovado que os mais novos não fazem parte do grupo de risco, desde que não apresentem doenças preexistentes. “O risco maior é de a criança levar o vírus para os adultos. Mas, os adultos já estão se expondo em outras atividades”, declarou.

No entanto, o infectologista Carlos Starling, membro do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 da capital, afirma que, “matematicamente, voltar (às aulas) neste momento é irresponsabilidade total”. “A nossa condição atual é ainda de altíssimo risco para o retorno”, complementa.

Conforme já anunciado em entrevista coletiva concedida pelo comitê, em agosto, a expectativa é a de reabrir as instituições de ensino quando a capital tiver menos de cinco casos do novo coronavírus a cada 100 mil habitantes. Hoje, ainda conforme o médico, está em 162. 

“Estamos longe de um momento seguro para abrirmos as escolas. Se atropelarmos a epidemiologia sem respeitarmos parâmetros, a epidemia volta e o fechamento será inevitável”, frisou Carlos Starling.

Havendo a reabertura antes de uma vacina eficaz contra o novo coronavírus, a artesão Ana Elisa Ribeiro, de 53 anos, não cogita mandar a filha Clarice Ribeiro Paes, de 16, para as aulas. A garota cursa o 2º ano do Ensino Médio. “Meu pai de 82 anos mora com a gente. Tenho medo de ela ser infectada e trazer o vírus para casa”.

Professores também temem. À frente de turmas de crianças de 7 a 11 anos, nas redes municipal e particular de ensino, Josiane* observa que todos os colegas querem voltar ao normal. “Mas não por pressão. Temos que ter segurança. Por mais que um aluno menor não queria, ele certamente vai descuidar da prevenção em algum momento, na troca de materiais com os colegas. É preciso ter muito cuidado”.

Diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Educação da Rede Pública de BH (Sindi-Rede), Cláudia Lopes ressalta, ainda, que antes do retorno das atividades escolares é preciso analisar, inclusive, a situação dos docentes. “Parte significativa dos professores é do grupo de risco e teriam que ficar de fora de uma possível volta. Então, seria preciso modificar a estrutura”. (Colaborou Cinthya Oliveira)
*Nome fictício

 

ALÉM DISSO:

Presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep), Zuleica Reis reivindica uma reunião com a PBH para “ter clareza sobre o processo para retomada das aulas na capital”. “Amanhã (hoje) completamos seis meses fechados. É preciso avaliar uma posição de retorno. Orientamos as instituições com relação a protocolos</CO> e elas já trabalham em cima das diretrizes. O que precisamos é que os órgãos competentes indiquem o dia de volta”, disse.
Em nota, a administração municipal destacou que a retomada das atividades escolares ainda está em estudo, conforme plano apresentado no fim de julho. “Oportunamente, todos os setores ainda não flexibilizados, incluindo as escolas, serão chamados pela prefeitura para discutir a retomada das atividades”.