A recuperação das áreas afetadas pelo rejeito de minério ainda é uma promessa. Para especialistas, as autoridades federais e estaduais precisam unir esforços. A principal crítica é quanto à descentralização das ações planejadas para dirimir as consequências ambientais e sociais ao longo de 663 quilômetros do rio Doce e seus afluentes.

“O que vemos é uma torre de Babel. É a primeira vez que há um impacto ambiental tão feio assim. Alguém tem de apadrinhar e comandar esse processo, pois faltam medidas arquitetadas conjuntamente pelos órgãos responsáveis”, avalia Wilson José Guerra, gerente de meio ambiente da Fundação Gorceix, ligada à Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Uma semana após a tragédia, ele percorreu o rio Doce colhendo amostras de água para pesquisa. Guerra cobra a união do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Estadual de Florestas (IEF) e Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam).

Coordenador do Projeto Manuelzão da UFMG e presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio das Velhas, Marcos Polignano cobra a instalação de um “gabinete de crise”. “Falta articulação das ações a curtíssimo, médio e longo prazo. Criar força-tarefa é muito pouco se comparado ao cenário de guerra que significou o desastre”, diz.

Criada por decreto, a força-tarefa citada por ele é composta por órgãos estaduais e prefeituras. “O sentimento é de que não há efetividade das ações. Como será articulado o trabalho de recuperação? Pela dimensão da catástrofe, esse papel cabe aos governos de Minas, Espírito Santo e federal”, diz Polignano.

NOVA FUNDAÇÃO

Para dar celeridades às ações, o secretário de Meio Ambiente do Espírito Santo, Rodrigo Judice, sugere criar uma fundação de direito privado para gerir os R$ 20,2 bilhões cobrados judicialmente da Samarco para reparar danos e indenizar as comunidades atingidas. A ação foi ajuizada em 30 de novembro pela Advocacia-Geral da União.

Mas, para Wilson Guerra, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, presidido pelo prefeito de Colatina (ES), Leonardo Deptulski, deve encabeçar essas ações. “O mais importante é que dinheiro seja liberado rapidamente para os órgãos executores. O Estado tem de ser ágil, o tempo de recuperação do rio Doce depende das decisões políticas”.

Deptulski não respondeu a solicitação de entrevista do Hoje em Dia.

Demora do diagnóstico pode comprometer revitalização

Técnicos do Projeto Manuelzão, do CBH Rio das Velhas e da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) coletaram amostras de água e lama para elaborar projetos de recuperação ambiental. Porém, com as ações pulverizadas, especialistas estimam no mínimo um ano para o diagnóstico completo dos estragos e mais de uma década para revitalizar o rio Doce.

Mesma estimativa tem o Ibama. “Os impactos não se limitam aos danos diretos, deve ser considerado que o meio ambiente é um sistema complexo, no qual diversas variáveis se inter-relacionam no contexto da bacia hidrográfica. As medidas de reparação dos danos, tangíveis e intangíveis, quando viáveis, terão execução a médio e longo prazos, neste caso pelo menos dez anos”, diz relatório técnico preliminar do órgão federal.

“Sem diagnóstico, não há como planejar ações”, destaca a professora Cibele Amaral, do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Ela esteve no distrito de Paracatu de Baixo, em Mariana, avaliando os danos ambientais.

Cibele afirma que as ações do governo de Minas, da Samarco, da União e da Prefeitura de Mariana serão implementadas. Porém, precisam de diagnósticos feitos por universidades, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e empresas contratadas pela mineradora.

 

CONTRIBUIÇÃO DA CHUVA

Wilson Guerra, gerente de meio ambiente da Fundação Gorceix, destaca que a recuperação deve ser iniciada pela limpeza, recomposição das matas ciliares e preservação das nascentes.

“É preciso verificar como a chuva atuará no processo de escoamento dos sedimentos. É urgente cuidar do Doce e das respectivas nascentes, para que desça muita água limpa e acelere a recuperação. Esse processo pode ser otimizado se houver chuva nos afluentes”, diz.

Quase 700 quilômetros do rio Doce clamam por socorro

Os impactos ambientais foram diferentes em cada parte do rio Doce. É o que destaca o biólogo Ricardo Pinto Coelho, coordenador do Laboratório de Gestão de Reservatórios da UFMG.

Segundo ele, no Alto Rio Doce, os afluentes Gualaxo Norte, Carmo e Piranga foram contaminados por sedimentos, tornando a água imprópria para o consumo e causando erosão e assoreamento. “Muito material ficou depositado ao longo de 80 quilômetros nos vales, com a perda de 15 quilômetros quadrados de mata ciliar”, aponta.

Da foz do Piranga à do Piracicaba, o assoreamento e a mata ciliar arrastada pela lama paralisaram a hidrelétrica Risoleta Neves (Candonga). De Coronel Fabriciano a Colatina (ES), passando por Ipatinga e Governador Valadares, houve mortandade de peixes. “Os danos à vida aquática são imensuráveis e impactam a vida marinha”, afirma.

SUSTENTO PREJUDICADO

O prejuízo maior, porém, foi das comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas, que dependem do rio e manguezais para o sustento. “Essas comunidades, que se alimentam basicamente de peixe, terão de mudar a dieta”, afirma o relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos à água e pesquisador da Fiocruz, Leo Heller.

Segundo ele, a proliferação de doenças preocupa os pesquisadores que avaliam a extensão dos danos. Estudos sobre os impactos à saúde humana são coordenados pelo Centro de Pesquisas René Rachou, unidade da Fiocruz em Minas, com a participação de cientistas do Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Bahia e Ceará.

Eles alertam sobre os riscos da proliferação de leptospirose, tifo, hepatite e diarreias agudas, além de transtornos mentais e de doenças relacionadas à intoxicação química.