Esqueça aquela antiga imagem do professor que dá aulas usando apenas o quadro negro e é o único detentor do saber. Essa tradicional figura não tem mais espaço nos dias atuais. Para prender a atenção dos alunos, quem encara uma sala de aula lotada precisa reinventar o modo de ensinar e de ver a própria profissão.

Contextualizar o conteúdo e utilizar as ferramentas tecnológicas são atitudes já esperadas dos educadores de hoje em dia. São formas bem-sucedidas de tornar o ensino mais atrativo e de ajudar os estudantes a assimilar a matéria, afirma a pedagoga Maria Auxiliadora Monteiro Oliveira, responsável pelo programa de pós-graduação em educação da PUC Minas.

Ela ressalta, no entanto, que apenas isso não basta. Esses recursos nada acrescentam se o professor não tiver a formação adequada, um sólido conhecimento teórico e a capacidade de comunicação. “A tecnologia ainda não substitui o professor. Portanto, quem quer ensinar tem que dominar o conteúdo, manter-se atualizado e saber o que está fazendo”.

Mudanças

A mudança vai além. Para a coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Fumec, Alessandra Latalisa, o papel da escola também não é mais o mesmo.

O conhecimento que por muitos anos esteve restrito a livros didáticos e à sala de aula tornou-se acessível em apenas um clique. “O ritmo de informação produzida é muito superior atualmente do que há 50 anos. Com isso, as instituições de ensino deixaram de ser as únicas capazes de transmitir o conteúdo. Hoje, devem se preocupar em formar um sujeito que corra atrás das informações, mas que consiga transformá-la em conhecimento”, afirma Alessandra.

Não é tão fácil, porém, assumir essa nova responsabilidade. É preciso revisar a formação dos próprios professores, de modo que aprendam, ainda na faculdade, estratégias para estimular os alunos a serem autônomos intelectualmente.

Bom exemplo

Em Belo Horizonte já existem colégios que investem em um novo modelo de ensino. A Escola da Serra, localizada no bairro de mesmo nome, faz parte desse seleto grupo.

Fugindo dos padrões convencionais adotados em todo o mundo, os alunos da instituição sentam-se sempre em grupos para que possam compartilhar o conhecimento. Além disso, as salas de aula foram substituídas por grandes ambientes de estudo, de modo que estudantes de diferentes idades permaneçam juntos no mesmo local.

As mudanças não foram feitas aleatoriamente, explica Flávio de Castro, professor de português. “Foi um processo para que os alunos se tornem protagonistas do seu aprendizado. O professor indica, orienta e auxilia sempre que é necessário. Mas o estudante tem autonomia para escolher o que estudar. Nos dias de hoje não faz mais sentido chegar com o currículo pronto e ensinar um conteúdo apenas para cobrá-lo depois em uma prova”.

Para estimular os adolescentes a aprender por conta própria, Flávio faz uso de diferentes recursos. Para falar sobre os movimentos literários, por exemplo, propôs a criação de uma revista, de modo que os próprios alunos buscassem as informações sobre o conteúdo.

De forma semelhante, entregou uma pequena estatueta aos estudantes para que descobrissem, por conta própria, porque a imagem era considerada barroca.

Defensor desse novo modelo educacional, Flávio admite que precisou rever a forma como encarava a sua profissão. Antes, estava acostumado a preparar alunos exclusivamente para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Hoje, percebe que a formação do aluno vai muito além da prova.

Com criatividade, docente alia casos contados por moradores ao processo de aprendizagem

Alternativas ao modelo convencional de ensino não são vistas apenas na rede particular. Na educação pública também há professores que, com muita criatividade, investem em projetos pedagógicos diferenciados.

Como Ana Cláudia Santos, professora de português na Escola Estadual Padre Paulo, em Santo Antônio do Monte, na região Centro-Oeste de Minas. Em 2014, ela arriscou um novo jeito de ensinar conteúdos de sua matéria aos alunos do 6º ano. “Somos uma cidade pequena, bem interiorana, e os causos de família fazem parte do universo dos meus alunos. Propus que conversassem com os pais e avós e trouxessem algumas dessas histórias para a sala de aula”, conta.

Essa foi a isca necessária para introduzir aos alunos o tema variantes linguísticas – conteúdo que ensina que a língua nunca é falada da mesma forma, mas está sujeita a variações conforme época, regionalidade e grupo social do orador.

O trabalho não parou por aí. Em seguida, Ana Cláudia deu aos estudantes a tarefa de passar esses casos para o papel. “As primeiras redações eram escritas na linguagem coloquial. Pedi que reescrevessem o texto alterando para a norma culta”. O trabalho de cada aluno era revisto pelos colegas, que propunham algumas mudanças.

O resultado desse projeto foi um livro, que ganhou duas versões: uma impressa e outra virtual. Além de conquistar a atenção dos adolescentes, Ana Cláudia ganhou outro reconhecimento.

No ano passado, recebeu o prêmio Educador Nota 10 que, desde 1998, premia iniciativas de professores dos ensinos infantil e fundamental de todo o país.

Aos poucos

Na avaliação da pedagoga Alessandra Latalisa, bons exemplos como esse são a prova de que, aos poucos, a educação no Brasil está se rendendo às mudanças. “As experiências positivas ainda são pontuais, mas me fazem acreditar que caminhamos para o rumo certo. O modelo atual de ensino está ultrapassado e não atende às demanda contemporâneas”.

A especialista ressalta que as próprias avaliações do MEC – Provinha Brasil, Enem e Enade – estão forçando as mudanças. “Esses testes não cobram apenas o conteúdo. Agora, são elaborados para medir as habilidades dos alunos, o que é muito mais relevante”.

“O modelo escolar adotado hoje pela maioria das escolas é do século 19. Os professores são do século 20, e os alunos do século 21. Alguma coisa está desencontrada” (Flávio Castro - Professor de português)