Violência, abusos e homofobia são algumas das constatações feitas pelo Fórum Mineiro de Saúde Mental (FMSM) em um relatório sobre o atendimento a dependentes químicos nas comunidades terapêuticas (CTs). O levantamento foi feito com base em visitas de profissionais a unidades na região metropolitana de Belo Horizonte, no Norte do Estado e no Triângulo Mineiro. O material está retratado no documentário “Abusos e violações de direitos em comunidades terapêuticas: relatos de uma realidade anunciada”, que será lançado nesta quarta-feira, às 19h, no auditório da UNA.
 
Entre as práticas recentes implantadas em CTs estão algumas que violam os direitos à livre expressão da identidade sexual e de gênero. Em meio aos depoimentos de pacientes colhidos pela equipe do FMSM , há o de um ex-interno que relata como foi expulso de uma CT por estar no mesmo local que outro homem com o qual havia tido um relacionamento. Ele conta também ter presenciado o espancamento de um homossexual em uma das clínicas. 
 
“Amarrou o cara assim numa árvore, rasgou a roupa dele, raspou o bigode do cara só a metade, passou batom, tinta. Bateu, bateu e mandou o cara embora, todo rasgado (sic.)”, conta o interno no documento. Conforme relatos de internos, segundo a entidade, muitas CTs não aceitam homossexuais. 
 
“As CTs evangélicas ou católicas têm como ‘método terapêutico’ o uso da religiosidade. Porém, essa prática é, na maioria das vezes, compulsória, o que desrespeita o livre exercício das identidades religiosas”, afirma Soraia Marcos, militante do FMSM.
 
O trabalho do fórum, segundo Soraia, pode contribuir para melhorar o atendimento a esse público, na medida em que possibilita exigir dessas instituições transparência quanto a atuação e às melhorias no serviço prestado. 
 
O estudo foi patrocinado pelo Programa Internacional de Desenvolvimento de Redução de Danos da Open Society Foundations (OSP), com apoio dos conselhos regionais de Psicologia e Serviço Social, além da Frente Mineira Drogas e Direitos Humanos.
 
Comunidades se defendem
O presidente da Federação de Comunidades Terapêuticas Evangélicas do Brasil, pastor Wellington Antônio Vieira, criticou a iniciativa do levantamento feito pelo Fórum Mineiro de Saúde Mental. "Na verdade, o fórum tem tentado não se aproximar das comunidades terapêuticas para discutir políticas para recuperação de dependentes químicos. Temos um marco regulatório para as CTs, mas o fórum está batendo numa tecla só e não conhece a nossa realidade", disse. 
 
O Pastor também critica a falta de diálogo de integrantes do FMSM para buscar soluções conjuntas para o problemas da drogas. 
"Se tem acontecido maus-tratos, existem caminhos para denunciar. O fórum está fazendo uma perseguição às CTs. Já chamamos o Fórum para participar de eventos, mas eles não querem o diálogo. Aspiramos a democracia, eles não aceitam conversar. A CT é uma das respostas à questão dos dependentes de drogas. Estamos atrás de respostas", concluiu Vieira.
 
Minas Gerais é um dos estados do país com maior número de comunidades terapêuticas (CTs). De acordo com Secretaria Nacional de Política de Drogas (SENAD), eram 290 unidades do tipo, 48 delas financiadas com recursos da União, segundo relatório do Fórum Mineiro de Saúde Mental (FMSM), que será divulgado nesta semana. Em todo o país, o número de unidades ultrapassa 1.800.