O rio Doce poderá atingir três metros na madrugada desta quinta-feira (21) e desalojar mais moradores de Governador Valadares, no Leste do Estado. Os 2,58 metros registrados na tarde desta quarta-feira (20) foram suficientes para inundar ruas e obrigar os ribeirinhos a levantar os móveis e sair de casa.

A dona de casa Maria de Lourdes Ferreira, de 55 anos, e uma delas. Moradora da rua Frei Odorico Virga, no Nova Santa Rita, há 20 anos, conta que já perdeu a conta do número de enchentes que enfrentou e dos móveis que perdeu. Na última, há dois anos, não conseguiu salvar sequer as roupas.

Agora ela subiu os móveis com antecedência. "A gente sempre acredita que vai dar tempo de sair ou que a água não vai chegar aqui, mas ela é rápida e leva tudo. Vou tentar ter menos prejuízo este ano, porque mudar não tem jeito", diz.

Na casa de Marilza Paula Cardoso Fortunato Costa, de 50 anos, moradora da mesma rua, a água entrou pelos ralos. Os móveis foram levados para o terraço.

"São muitos anos de sofrimento. A gente acaba aprendendo a lidar com o problema, mas é desgastante demais", desabafa. O marido dela, o jornalista Fernando Cesar Fortunato Costa, de 58 anos, está preocupado com o contato com a água do rio Doce.

"Sabemos que não devemos ter contato com essa água por causa da lama de rejeitos que desceu da barragem da Samarco e do risco de contrairmos doenças que já conhecemos, como a hepatite e a leptospirose. Mas o que vamos fazer? Ou entramos, ou perdemos tudo. O jeito será os órgãos de saúde pública tratarem os ribeirinhos", avisa.

O barqueiro Rogério Marcelino, de 33 anos, também ignorou as recomendações para ficar longe da água bruta do rio Doce, após a contaminação pela lama. Há um mês começou a ter coceiras e feridas no corpo. "A morte e a coisa mais certa. E eu não tenho outra profissão", enfatiza.

Defesa Civil

Segundo o coordenador da Defesa Civil, Wilde Nonato, mais de dez ocorrências foram registradas nesta quarta. As mais graves foram o desabamento de duas casas, sem feridos. Não há desalojados ou desabrigados em abrigos. Os que precisaram sair foram para a casa de parentes.

Como as previsões são de mais chuvas e de elevação do nível do rio, a recomendação é para que a população fique em alerta e busque orientações pelo telefone da Defesa Civil, o 199. Carros de som estão rodando pelos bairros ribeirinhos avisando sobre as evoluções do nível do rio Doce.

Os primeiros bairros atingidos são: as regiões que ficam no início e o final do bairro Santa Rita; os bairros São Paulo, Santa Terezinha, São Tarcísio e São Pedro. A Ilha dos Araújos, a princípio, é atingida pela água que volta pelos bueiros. Só quando o rio passa dos 3,30 metros é que a água do leito do rio atinge o restante do bairro.

"A Defesa Civil alerta que a população não tenha contato com a água bruta do rio Doce para evitar doenças como leptospirose e hepatite e fique em alerta para não ser pega de surpresa", avisa Nonato. Carros de som rodam pelos bairros ribeirinhos para orientar a população sobre as evoluções do nível do rio Doce.

CPRM

A Defesa Civil de Governador Valadares trabalha com as informações do Serviço Geológico do Brasil - Companhia de Pesquisas em Recursos Minerais (CPRM), órgão federal que monitora a bacia do rio Doce. Para medir e calcular o quanto e quando a água chegará em Valadares, monitora também as telemétricas instaladas ao longo do rio.

As mais próximas estão localizadas na Cenibra, em Belo Oriente, e na represa de Naque Velho, em Naque. As previsões são feitas pela vazão da água e pelo tempo que ela leva para passar na cidade, avalia-se o nível do rio pela régua do SAAE. O nível médio do rio Doce na seca e de 90 centímetros.