Pelo menos 30 ocorrências, a maioria por desabamentos de muros e barrancos, foram registradas na manhã desta quinta-feira (21) em Governador Valadares, região Leste do Estado. O transbordamento do rio Doce também trouxe transtornos para os moradores ribeirinhos. A previsão e de mais chuvas até o final de semana.

Por volta das 11 horas, o nível do rio Doce, na régua de medição do SAAE, era de 2,82 metros. Mas de acordo com dados da Serviço Geológico do Brasil (CPRM), ele vai subir no decorrer do dia, podendo chegar a 3 metros à tarde. A partir daí, deve continuar subindo mais lentamente.

As chuvas deram trégua em Valadares nesta manhã, tempo que os moradores ribeirinhos usaram para fazer mudanças. Outros passaram a manhã levantando os móveis. Moradora do bairro São Tarcísio, a dona de casa Arlete Oliveira, de 55 anos, já está ilhada. Mas se recusa a sair.

A casa dela fica no fim de um beco tomado pela água. "De ontem para hoje o rio subiu rápido e se continuar assim, vai entrar dentro de casa. Tenho que colocar tudo pra cima, mas por enquanto vou ficar aqui", avisou, mostrando na parede as marcas da última enchente, há dois anos.

A vizinha dela, a doméstica Helena Martins, de 47 anos, estava preocupada. A manhã foi de correria. "Aqui em casa a água chega primeiro pelos ralos, mas também pela rua. É transtorno demais. Todo ano e o mesmo estresse", desabafou.

A rua Cláudio Manoel, no bairro São Tarcísio, é uma das mais baixas e serve como termômetro para os demais moradores da cidade. Quando o rio invade a rua é sinal que vai ter enchente. Ela também oferece uma das paisagens mais apreciadas e registradas do rio Doce.

"Essa é a paisagem mais linda do rio. Agora que está cheio, está ainda mais bonito, com ondas e correntezas. Ele precisava dessa chuva para ficar livre da lama (que vazou da barragem da Samarco em Mariana, dia 5 de novembro do ano passado). Pena que a cheia traz transtornos por aqui", diz a artesã Lúcia Jardim, de 49 anos.

Rio Doce transborda e provoca ao menos 30 ocorrências em Valadares

No outro extremo da cidade, no bairro Nova Santa Rita, a preocupação é a mesma. Várias ruas estão debaixo d'água. A supervisora de operações de uma empresa de telemarketing, Natália Ferreira, de 27 anos, passou a noite vigiando o avanço do rio na rua, a Rodolfo de Abreu.

"Aqui, quando entra pouca água, passa do rodapé. Tô cansada de levar prejuízo", avisa, contando que já passou por doze enchentes na mesma casa e quando não acredita na enchente é que ela acontece.
        
Ocorrências


Segundo o coordenador da Defesa Civil em Valadares, Wilde Nonato, já foram atendidas aproximadamente 30 ocorrências, a maioria de queda de muros. Ainda não há desabrigados ou desalojados em abrigos, mas segundo ele, as equipes da Assistência Social estão em alerta e os locais preparados.

"A previsão e de mais chuvas até o final de semana. A população deve ficar em alerta, porque previsão é previsão", disse Nonato, referindo-se as oscilações do nível do rio Doce, que ficou mais assoreado ápos a passagem da lama da Samarco.
 
CPRM

A Defesa Civil de Valadares trabalha com as informações da CPRM, que é o órgão federal que monitora a bacia do Rio Doce. Para medir e calcular o quanto e quando a água chegará em Valadares, existem telemétricas ao longo do rio Doce e de outros rios que deságuam no Doce, como o Santo Antônio e Piracicaba.

As telemétricas mais próximas estão localizadas na Cenibra e em Naque Velho (rio Santo Antônio). As previsões são feitas pela vazão da água e pelo tempo que ela leva para passar na cidade. A medida do nível do rio é feita pela régua do SAAE.