Dificilmente, o rio São Francisco deve ser impactado pela lama de Brumadinho. Isso porque, segundo o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Anivaldo Miranda, por se tratar de uma lama mais densa do que a de Mariana, ela caminha lentamente, com uma velocidade de 1 KM/H, de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), dando tempo suficiente para que uma operação de contenção da lama de rejeitos seja montada antes de finalmente atingir a Usina de Três Marias, o primeiro embarramento do rio São Francisco. 

A operação consiste em preparar a Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, entre os municípios de Curvelo e Pompéu, na região Central de Minas, para "segurar" a lama e não deixá-la seguir o curso do rio Paraopeba. Retiro Baixo é o último embarramento do rio Paraopeba antes de ele cumprir a sua missão como afluente do São Francisco e desembocar em Três Marias. 

"O que aconteceu no Paraopeba pode ser definido como um desastre ambiental de grande porte, mas o rio pode ter salvado o Velho Chico. Há uma grande chance de a usina de Retiro Baixo conseguir amortecer a lama e evitar que ela chegue a Três Marias, no São Francisco. E o Paraopeba, por sua extensão, também ajuda a ir diluindo essa lama ao longo do caminho", explica Miranda. 

A previsão da chegada da lama até a usina de Retiro Baixo é entre o dia 5 e 10 de fevereiro, uma distância aproximada de 306 KM entre este destino e o local do rompimento em Brumadinho. Já entre Retiro Baixo e a Usina de Três Marias, a distância é de 29 KM. 

Para "prender" a lama em Retiro Baixo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) desligou o sistema operacional da usina por volta de meio-dia desta segunda-feira (28). A área deste reservatório é de 22,58 km² e uma altura máxima de 44 metros em seu barramento. 

Ainda segundo a ANA e o presidente do CBHSF, mesmo que a onda de rejeitos ultrapasse a barreira de Retiro Baixo e chegue a Três Marias, ela será rapidamente diluída devido a grande extensão da represa. O volume total do reservatório de Três Marias é de 19,5 trilhões de litros, sendo o segundo maior reservatório da bacia do rio São Francisco, ficando atrás apenas do reservatório de Sobradinho, na Bahia, que tem 34,1 trilhões de litros. 

Sacrifício

Embora o rio São Francisco tenha se salvado da lama de acordo com as previsões iniciais dos especialistas, o rio Paraopeba não teve a mesma sorte. Mas foi graças a ele que o Velho Chico foi poupado, já que devido a extensão de seu afluente, a lama vai se diluindo gradativamente ao longo do caminho.

O Paraopeba tem uma área total de cerca de 12 mil km² e sua extensão percorre aproximadamente 540 km, afetando 48 municípios, sendo que 35 deles tem sede na bacia. Isso significa que o banho de rejeitos que ele recebeu no último dia 25 em Brumadinho deve afetar uma população de 1.318.885 milhão de habitantes. 

Por ali, vivem peixes como corvinas, curimbatás, surubins e dourados, mas também espécies endêmicas que incluem insetos e a vegetação de suas margens. Algumas delas podem entrar em extinção com a morte iminente do rio.

"Além de provavelmente afetar a captação de água para o abastecimento de várias cidades do Estado, os danos também podem ser irreversíveis para a biodiversidade. A gente pensa somente em peixes quando falamos em rio, mas além deles, há também alguns insetos, por exemplo, algumas plantas, que só vivem ali e podem ser extintas com isso. Há todo um ecossistema envolvido que pode ter sido afetado irreversivelmente", lamenta o presidente do CBHSD, Anivaldo Miranda. 

Para falar sobre isso e alertar a população e a imprensa, inclusive, internacional, sobre os danos ambientais causados, os representantes dos comitês da Bacia Hidrográfica do São Francisco, do Rio das Velhas e do Paraopeba, e do Projeto Manuelzão da UFMG farão uma coletiva em Brumadinho na próxima quarta-feira (30). 

"O Brasil é signatário de alguns acordos mundiais envolvendo o meio ambiente e precisa estar atento às respostas internacionais que isso deverá trazer. Nós abrigamos um grande capítulo da biodiversidade mundial, mas tratamos disso de forma muito negligente", conclui Miranda.  

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