A disseminação de doenças ao longo do rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, região Central do Estado, preocupa pesquisadores das áreas de saúde e meio ambiente. O alerta foi a tônica de uma videoconferência, na terça-feira, envolvendo cerca de 60 cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Organização das Nações Unidas (ONU) e da UFMG.

Os pesquisadores chamam atenção para os riscos a que estão sujeitas as populações afetadas pelo tsunami de lama. Há preocupação com casos de leptospirose, tifo, hepatite e diarreias agudas. Transtornos mentais e doenças relacionadas à intoxicação química causada por rejeitos da mineração também integram a lista.

Relator da ONU para os Direitos Humanos à Água, Leo Heller disse que as propostas do grupo são, ainda, embrionárias. Entretanto, ele reforça que medidas de curto prazo, como melhorar a vigilância de doenças relacionadas ao desastre e monitorar a água que abastece as comunidades, precisam ser adotadas imediatamente.

“A ação requer o engajamento dos profissionais do SUS (Sistema Único de Saúde) da região”, frisa. Segundo Heller, são elaboradas investigações com dados secundários para medir como a saúde das comunidades é afetada e como a população está percebendo o problema.

A saúde mental é uma das preocupações. “Está relacionada à perda de valores não materiais. Transtornos, traumas e depressão afetam os que foram retirados do seu local de origem ou que tiveram o ambiente alterado”, explica Heller.

A toxicidade da lama, acrescenta o pesquisador, também pode causar danos à saúde, como doenças de pele e problemas mentais. Há fortes indícios de que a bacia do Doce foi contaminada por várias tipos de metais pesados, como ferro, manganês, arsênico e bário, além de resíduos de óleo e graxa de máquinas e caminhões utilizados na extração de minério.

Engajamento

Os estudos sobre os impactos da tragédia para a saúde são coordenados pelo Centro de Pesquisas René Rachou, unidade da Fiocruz em Minas, e têm a participação de cientistas do Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Bahia. O engajamento da comunidade acadêmica nas atividades é destacado por Heller. “Houve ampla adesão dos cientistas nos debates”.