Oferecer acompanhamento multidisciplinar adequado, capacitar profissionais da saúde e custear o tratamento médico das crianças nascidas com microcefalia em todo o Brasil serão os principais desafios do poder público no enfrentamento da má-formação nos próximos anos, de acordo com especialistas.

Diante do aumento expressivo no número de bebês microcéfalos no país – em função do zika vírus, transmitido pelo Aedes aegypti, mesmo vetor da dengue e da febre chikungunya –, a preocupação, agora, é com a falta de recursos e de estrutura para os atendimentos que serão demandados do Serviço Único de Saúde (SUS) a médio e a longo prazos.

“Para a rede pública, em termos financeiros, isso terá um grande impacto. Todas essas crianças, por lei, terão direito a receber benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) ad aeternum. É uma situação muito complicada”, afirma a presidente do Comitê Científico de Neurologia Infantil da Sociedade Mineira de Pediatria, Marli de Araújo Marra.

Segundo ela, além de impactar primeiramente as próprias crianças, a microcefalia traz sérias consequências para as famílias à medida que os filhos vão crescendo. Portadores de limitações físicas e cognitivas, conforme o grau de comprometimento do cérebro, alguns precisam de dedicação em tempo integral.

Drama

Muitas famílias não dão conta de lidar com a situação e há vários casos em que o casal acaba se separando, afirma Marli. “É preciso ter uma estrutura muito grande, que envolve apoio psicológico às crianças, aos pais e aos irmãos que, muitas vezes, serão deixados de lado, porque uma criança com microcefalia exige muitos cuidados”.

E o cenário poderá ser ainda mais tenso. O receio dos médicos é o de que os registros de microcefalia se espalhem pelo país, elevando os índices de crianças com a má-formação em outros Estados, tal como vem ocorrendo em Pernambuco.

“Se isso acontecer, vai ser uma tragédia. Vamos aumentar consideravelmente os custos da assistência à saúde brasileira e ter retornos menos expressivos, porque o custo de uma criança dessas para o poder público é muito elevado e é para o resto da vida”, ressalta o neurologista infantil Christóvão de Castro Xavier, vice-presidente do capítulo Minas Gerais da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil.

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae-BH) recebeu comunicado da Secretaria de Estado de Saúde (SES) sobre a possibilidade de aumento na demanda pelos serviços da instituição.

Segundo a coordenadora de ações integradas da associação, Patrícia Pinto, o atendimento será prestado normalmente, graças a convênio com o SUS.

Secretaria realiza reuniões para aperfeiçoar assistência
 
A SES informou, em nota, que “tem se reunido desde novembro de 2015 para aperfeiçoar e rever o fluxo de assistência aos pacientes com microcefalia e às famílias”.

Conforme o órgão, nas localidades em que não há Centros Especializados em Recuperação (CERs), o atendimento aos pacientes com microcefalia é realizado por meio dos Serviços de Reabilitação de Modalidade Única.

De acordo com a SES, as maternidades da Rede Fhemig (Odete Valadares, Hospital Regional João Penido e Hospital Regional Antônio Dias) foram orientadas a fazer o encaminhamento devido dos bebês microcéfalos.

Brasília

O Ministério da Saúde garante que tem tomado medidas para o atendimento das crianças nascidas com microcefalia. Segundo a assessoria do órgão, o investimento nos custeios do atendimento em reabilitação são da ordem de R$ 650,6 milhões por ano, além de valores destinados a obras e equipamentos.